A Educação em nossos dias e o Psicodrama
“Vazio de idéias? Alguns supõem que sim. E tendem a traçar um quadro mais ou menos desolador do tempo que vivemos. Estaríamos sem teto e entre ruínas – para utilizarmos uma expressão que a literatura consagrou. Segundo a perspectiva considerada mais “progressista”, a paisagem depois do comunismo seria a de um deserto que cresce. No limite de todos os desmantelamentos, aguarda-se, em atitude de súplica, a improbabilidade do milagre. Outros, mais conservadores, mais vinculados a uma aristocracia do espírito, vêem com verdadeiro horror os nivelamentos e banalizações de uma cultura massificada e de uma escola em incessante degradação. Outros ainda, perturbados com a invasão de uma tecnociência que supõem acéfala, entrevêem no horizonte os sinais aterradores do niilismo e da barbárie. No entanto, através do próprio desastre, nessa perda dos astros reguladores, que todo desastre é, alguma coisa se move que, se nos incitarmos a seguir o fio tênue desse movimento, nos poderá conceder um pouco de alegria e deslumbramento – o enigmático sorriso de um virar de século”.
Eduardo Prado Coelho
1 – A Educação: a escola, o aprendiz, o professor e o mundo
Inserida num contexto em que o paradigma dominante é cartesiano, mecanicista, a escola refletiu e, apesar das grandes mudanças no pensamento científico atual, continua refletindo a idéia de mundo - máquina e conseqüentemente homem – máquina. Era e continua sendo regida pelas idéias de um universo estável e mecanicista de Newton, pela metodologia cartesiana, pelo determinismo mensurável. Seu principal objetivo tem sido tecnicista.
O conhecimento vem sendo dividido, fragmentado, sem preocupação com a totalidade, com o real entendimento da vida e do mundo, descontextualizado. O valor colocado na assimilação, acumulação de “conhecimentos”, que devem ser devolvidos o mais fielmente possível no momento de avaliação, que tem priorizado a memória e a capacidade de expressão do que foi transmitido. As aulas, na maioria das vezes , expositivas e os exercícios , de fixação: o importante é reter e repetir.
O professor detentor do conhecimento, responsável pela transmissão de conteúdo, freqüentemente, tem encarado o aluno como depositário e espera dele a repetição sem crítica, como ele o fez e continua fazendo. O relacionamento mestre – aprendiz quase sempre autoritário, vertical, pressupondo obediência e submissão. O modelo de relação muitas vezes tem sido de domesticação, não pressupondo valores solidários. O aluno, sujeito que conhece, não vem sendo levado em consideração, mas o professor também não, segue a pauta de um papel pré-estabelecido. O sujeito não conta.
O ensino – aprendizagem vem sendo calcado na razão. Professores e alunos sofrendo grave mutilação. As emoções, tanto como facilitadoras do processo, como inibidoras, tem, na maioria das vezes, sido ignoradas e vistas apenas como aspectos não pertinentes que podem e devem ser afastadas, negadas ou encaminhadas para seus responsáveis técnicos.
Refletindo e reafirmando os valores da modernidade, o ensino tem sido quantitativo e não qualitativo, de dominação e não de parceria, competitivo e não cooperativo. O ser humano e a natureza estão sendo separados, o mundo e a sociedade distanciados. O externo tem sido visto manipulável e submisso. O homem está sendo dissociado de si mesmo e do mundo.
O mundo caminha, corre, os seres humanos agem e reagem, a ciência se transforma, e a educação, a escola, o professor e o aluno permanecem no mesmo lugar. É como se seus papéis estivessem engessados, presos a conservas culturais que impedem sua libertação para criar o novo. Educadores e educandos são seres humanos que em seus demais papéis vivem em um mundo de incertezas, angustiados, frente a um novo que ainda não conhecem que os leva a agir e reagir, mas ao vestirem seus uniformes e aventais parecem voltar a seus papéis sociais estereotipados repetindo sempre os mesmos modelos.
Faz -se necessária uma reintegração do indivíduo que conhece, que precisa passar a ser percebido e tratado não apenas como um ser racional, mas como ser indiviso que constrói o conhecimento não apenas através da razão e dos sentidos, mas também através de suas sensações e sentimentos. A educação deve ser vista como um sistema aberto que requer que os processos de conhecimento estejam em permanente construção e reconstrução pela ação do sujeito sobre o meio, que somente pode ocorrer mediante relações interativas e dialógicas entre aluno e professor. O professor necessita, desta forma, aprender a aceitar as incertezas, re - planejando suas ações com base no inesperado, encorajando o diálogo.
Sem duvida, esta é uma mudança de base, que requer muita flexibilidade, criatividade, interatividade, adaptabilidade, cooperação, parceria, apoio mútuo e auto – organização. Uma grande capacidade inovadora.
Um dos entraves para a mudança de paradigmas na educação, está em como realizá-lo sem repetir-se o próprio modelo que se está a criticar. Como realizar uma mudança em um processo inteiramente realizado por seres humanos que carregam dentro de si, de forma extremamente arraigada e, percebidas como verdadeiras, não somente idéias com relação ao conhecimento como em relação a si mesmos, às pessoas, à vida, à natureza, ao mundo? Como fazê-lo, respeitando seus conhecimentos, suas individualidades, seus ritmos, em uma relação horizontal, em que o conhecimento seja produzido de dentro para fora do indivíduo? Como realizar uma mudança que envolve muito mais que aspectos racionais e palpáveis? Os métodos pedagógicos disponíveis que estão calcados fundamentalmente na razão seriam suficientes para uma mudança de tal envergadura?
A primeira ruptura paradigmática necessária, parece estar no entendimento e na coragem de enfrentar a necessidade de rompimento da dicotomia razão – emoção; na ousadia em experimentar uma nova perspectiva que tira a todos, num primeiro momento, de sua zona de conforto, e que assusta pelo desconhecimento.
Como bem colocou Paulo Freire:
“É preciso ousar para dizer cientificamente que estudamos, aprendemos, ensinamos, conhecemos com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e também com a razão crítica. Jamais com esta apenas. É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional”.
Uma vez compreendida e aceita a necessidade deste rompimento, conseqüentemente, outra ruptura talvez tenha que ocorrer: o enfrentamento de que os métodos pedagógicos que vem sendo utilizados, fundamentados na razão, possam não dar conta desta nova perspectiva, e que seja o momento de entender que outras disciplinas podem trazer contribuições: valorizar a interdisciplinaridade.
Em um paradigma que dividia, fragmentava o conhecimento, sem preocupação com a totalidade, com o real entendimento do homem, da vida e do mundo, o ensino - aprendizagem era visto como um processo racional, pertinente à educação e portanto à pedagogia, e, a terapêutica, como emocional, pertinente à saúde e portanto à psicologia. O professor, se apresentasse dificuldades em sala de aula com seus alunos, pares ou instituição, deveria participar de um “curso” que o “ensinasse” a lidar com as situações, ou encontrava-se tão perturbado emocionalmente que deveria procurar um serviço psicológico.
Atualmente já está havendo a compreensão de que modelos e valores interiorizados pelos indivíduos através de suas vivências, podem interferir, atrapalhando seu desempenho profissional, e que, estas dificuldades devem ser aceitas, compreendidas e trabalhadas em seu próprio contexto, e a psicologia vem desenvolvendo métodos eficazes para tanto.
Uma das contribuições que a psicologia pode fornecer à pedagogia é o método psicodramático, que se propõe a promover o desenvolvimento da espontaneidade – criatividade, ou seja a capacidade de emitir respostas novas e adequadas às situações vividas, tornando claras e conscientes as conservas culturais que levam os indivíduos à repetição, nem sempre adequada, de padrões de comportamento. Uma metodologia que considera o indivíduo inteiro, com seus aspectos racionais e emocionais, trabalhando não somente com a cabeça, mas com o corpo inteiro, na ação.
“ A improvisação dramática é utilizada para resolver conflitos passados, bem como para conflitos presentes ou o que se possa imaginar como conflitos ou dificuldades futuras, para explorar situações difíceis e preparar-se para enfrentá-las. O Psicodrama é, pois, sempre terapêutico e pedagógico, porém pode-se inclinar a balança para a terapia profunda ou para a pedagogia”.
2 –O Psicodrama:
Jacob Levy Moreno, judeu romeno, nascido em 1889, formado em Medicina em Viena, amadureceu muito através do sofrimento e da ruína provocados pela primeira guerra mundial, que lhe causaram profundo impacto, levando-o à busca da construção de um método que desse conta de cuidar da saúde não de indivíduos particularmente, mas das sociedades como um todo, que percebia adoecida: O Psicodrama.
Não aderia a nenhuma ideologia política, criticando a busca de soluções para os problemas humanos através de modelos político – econômicos. Acreditava em revoluções cotidianas através do desenvolvimento do respeito e responsabilidade do homem para consigo mesmo, para com o outro e para com a natureza; da conquista da liberdade, do abandono das soluções prontas.
Sua formação religiosa e seu gosto pelas artes cênicas levaram - no a pensar em um tipo de teatro em que os atores pudessem ter maior liberdade de criação: o teatro espontâneo. Suas experiências com um grupo de atores amadores fizeram com que descobrisse o extraordinário poder da dramatização sobre o psiquismo humano, tanto dos que participavam ativamente de cenas, quanto dos expectadores.
O homem é compreendido por Moreno como um ser social: nasce em sociedade e precisa dos outros para sobreviver. Está sempre em relação. È co – criador do universo, agente de sua história. Todo o seu corpo teórico, portanto, parte da idéia do homem em relação.
Moreno considerava que as palavras eram insuficientes para a comunicação, e que podiam mesmo, muitas vezes deturpá-la, sendo responsáveis por grande parte dos mal entendidos e agentes de defesas. A ação, por outro lado, até mesmo por sofrer menor controle racional, poderia constituir-se em um excelente meio de comunicação dos indivíduos consigo mesmo e com o mundo externo.
Seus métodos são de investigação e de intervenção social, utilizando recursos cênicos e dramáticos como veículos para a objetivação de subjetividades. Seu objeto de estudo é a intersecção entre o individual e o social
O principal conceito de sua obra é o de espontaneidade – criatividade, que é definido como a capacidade humana de criar soluções inteligentes para o conflito entre suas necessidades internas e as demandas das situações externas da vida.
A percepção de si mesmo, do outro e do mundo, na maioria das vezes é prejudicada por filtros originados por valores interiorizados ou experiências anteriormente vividas, a que Moreno denomina de conservas culturais. São elas as responsáveis por padrões repetitivos e inadequados do comportamento. O trabalho de desenvolvimento da espontaneidade visa justamente o abandono de fórmulas prontas, conservadas; a busca da liberdade; a percepção mais acurada e livre de si mesmo, do outro e do mundo.
Quanto mais o individuo se liberta de condicionamentos individuais e sociais, mais pura é a expressão de seus sentimentos e necessidades, e maior é sua condição de ver os outros como são, também com seus imperativos e emoções. Como denomina Moreno, maior sua capacidade de se colocar no lugar do outro. Esta busca de maior compreensão de si mesmo e do outro, pode ser definida como um dos grandes objetivos de Moreno, o desenvolvimento da capacidade télica.
O trabalho psicodramático, utilizando-se da dramatização e suas técnicas, leva à expressão de sentimentos de forma muito próxima a que ocorre na vida real, e visa trabalhar nos indivíduos a espontaneidade – criatividade quando pouco desenvolvida ou bloqueada por valores interiorizados, propiciando maior eficiência, adequação e inventividade tanto em seus relacionamentos sociais, quanto afetivos.
As técnicas disponíveis, apesar de exigirem sensibilidade e fundamentação teórica para sua aplicação, são extremamente simples, na medida em que foram elaboradas a partir da observação de como os indivíduos agem naturalmente para a elaboração de seus conteúdos.
Moreno acreditava que o desenvolvimento da espontaneidade – criatividade deveria fazer parte do processo de maturação de todos os indivíduos e sociedades. Seu Projeto Socionômico, tem sido considerado utópico, na medida em que visava atingir toda a humanidade, a busca de um mundo mais saudável.
Desta forma, o Psicodrama, além do âmbito clinico, psicoterapeutico, pode ser aplicado em toda e qualquer situação em que se objetive a inserção dos indivíduos no questionamento e no enfrentamento de sua realidade, e atualmente, mais do que nunca, trabalhos com esta finalidade se fazem necessários.
As relações dos homens consigo mesmos, com os outros e com o mundo vem se tornando utilitária, vazia, sem história e sem preocupação com o futuro. O ser humano encontra-se angustiado, perdido, reagindo de forma egoísta, competitiva, destruidora nas relações consigo mesmos, com os outros e com o ambiente.
O aprendizado tem sido realizado através da introjeção de conceitos e normas sociais que se passa a viver inconscientemente como naturais. Não se aprende o questionamento, fazendo com que os homens tornem-se escravos de suas próprias idéias.
Infelizmente, a maioria das propostas educativas, não somente no contexto escolar, continua baseando-se no esquema pedagógico ultrapassado de transmissão de conhecimentos, ou seja, sob o título de conscientização, novamente se está impingindo idéias, teorias, em um esquema vertical, autoritário, de fora para dentro, criando novas conservas culturais, deixando os indivíduos desarmados para mudanças.
Os grupos de trabalho / aprendizagem são constituídos a partir dos mais variados critérios, sem considerar a importância da dimensão afetiva emocional. As equipes são formadas agrupando-se indivíduos e propondo-se tarefas e metas sem levar-se em consideração o estágio de desenvolvimento de suas relações, como se o mero fato de juntar-se mais de uma pessoa já constituísse um grupo.
Egocentrismo, competitividade, autoritarismo, priorização dos aspectos racionais em detrimento dos emocionais, ausência de consciência crítica, são valores que subjazem aos comportamentos de indivíduos e instituições.
O Psicodrama tem como princípios norteadores, a valorização das inter relações, a busca do encontro, a solidariedade, a compreensão, a horizontalidade nas relações, a troca, o espírito crítico, a procura por respostas novas, criativas e pessoais, a valorização das emoções. Neste sentido, muito tem a contribuir com a atual sociedade que, como já colocava Moreno, vem adoecendo, desumanizando-se.
O Psicodrama aplicado ao âmbito sócio educacional, pode chegar à população onde esta se encontra: nas empresas, nas escolas, nos hospitais, como agente transformador. Seus instrumentos básicos são o Role Playing e o Sociodrama. O Role Playing utilizado no desenvolvimento de papéis e o Sociodrama na construção e aprimoramento dos relacionamentos interpessoais e intergrupais, bem como na conscientização de valores culturais subjacentes tanto ao grupo em questão, quanto ao contexto social mais amplo em que está inserido.
O Role Playing ou jogo de papéis é um instrumento do Psicodrama de grande utilidade quando se pretende a melhoria na atuação de um indivíduo em um determinado papel. Os diversos papéis que os seres humanos desempenham durante toda a sua vida, são de alguma forma aprendidos: existe uma pauta social para cada papel Ao tomar um determinado papel, os indivíduos tendem a repetir este regulamento pré-estabelecido de forma acrítica, repetindo modelos anteriores, muitas vezes carregados de valores dos quais não é consciente. O desenvolvimento de papéis realizado através do role playing permite tanto a entrada em contato consigo mesmo, com suas percepções e sentimentos quanto com os dos demais envolvidos, seus valores e necessidades, liberando a espontaneidade, reavaliando posturas, pré-conceitos, criando um novo papel, mais adequado a si próprio, e à realidade. Seus objetivos são inversos aos dos programas de treinamento e adestramento tradicionais, que pressupõe uma resposta correta que deve ser aprendida pelo indivíduo, que passivamente recebe um modelo que deve ser repetido independentemente da situação. Oferece enfim, um desenvolvimento de papel rico e compromissado com a realidade: o participante re-cria o papel dentro de si, enriquece-se e enriquece o papel. É agente transformador, desenvolvendo a espontaneidade - criatividade dos indivíduos e da cultura.
O Sociodrama pode ser utilizado tanto para o desenvolvimento das inter relações em pequenos grupos, quanto como instrumento de busca de conscientização dos valores implícitos em uma dada organização social.
Em pequenos grupos, através da utilização de instrumentos sociométricos, permite uma visão microscópica da rede relacional existente, com seus conflitos, e a proposição de trabalhos visando suas elaborações e possibilidades de resolução. Pode assumir também, um caráter preventivo, criando condições favoráveis, para que um novo grupo possa desenvolver redes relacionais mais saudáveis baseadas em maior auto e hetero conhecimento.
De forma mais ampla, o sociodrama pode ainda criar um espaço para o desempenho de papéis que permita revelar os valores culturais de um grupo e suas redes, e possibilitar a conscientização da situação e do papel de cada integrante, propiciando a mudança, na medida em que permite a crítica do que foi revelado e o desenvolvimento de novas formas de atuação.
Finalizando, o dinamismo das técnicas psicodramáticas, a clareza de seus conceitos teóricos e a profunda humanidade de sua fundamentação filosófica, viabilizam um vasto campo de aplicação e reflexão para todos os profissionais que se envolvam com pessoas. Oferece desde uma metodologia de trabalho que agrega o sentir, o agir e o pensar, tornando o aprendizado mais integrado e conseqüentemente eficiente, como recursos para desenvolver uma maior consciência de si mesmos e dos outros, propiciando inter relações mais saudáveis.
O Psicodrama com foco Sócio Educacional diferencia-se basicamente do Psicodrama com foco Psicoterápico, por seu “setting” e pelo contrato estabelecido. O cliente do Psicodrama Sócio Educacional, quer seja na empresa, na escola ou em instituições, na maioria das vezes não escolheu por si mesmo, o momento, o profissional ou o grupo de que fará parte. Exige, portanto, do profissional cuidados éticos especiais. Os papéis a serem desenvolvidos devem estar claramente explicitados para o coordenador e para o grupo, e seus limites firmemente observados. Esta diferenciação do clínico, no entanto, não significa a negação da dimensão afetivo-emocional do Psicodrama Sócio Educacional. A desconsideração deste aspecto tem sido a grande responsável pela robotização e conseqüente desumanização que tem sofrido o mundo moderno.
“Todos os criadores estão a sós até que seu amor
pela criação forma um mundo ao seu redor.”
Rosa Lídia Pacheco F. Pontes
Psicóloga, Psicodramatista, Especialista em Psicologia Clínica e Organizacional, Mestranda em Educação
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