Psicodrama e a Humanização das Relações:

       Quando nos comunicamos, ou melhor quando tentamos nos expressar, utilizamos palavras e pressupomos que o outro as entendam exatamente da forma como sentimos. Na maioria das vezes, não nos ocorre que o outro possa estar atribuindo um significado diferente a elas (não necessariamente errado) daquele que expressa nossa idéia. 

       Desta forma, quando solicitada a falar sobre um tema, sempre que posso, procuro pesquisar os diferentes sentidos que uma determinada palavra pode assumir, para que deixe claro ao ouvinte exatamente sobre o que quero opinar.

       Neste sentido, penso ser primeiramente necessário definir de que Psicodrama estarei falando.
Moreno, no capítulo II de seu livro Psicoterapia de Grupo e Psicodrama, coloca que o conceito mais geral de seu sistema é a Socionomia, definida como a ciência das leis sociais, que divide-se em três ramos:

- a Sociodinâmica, ciência da estrutura dos grupos sociais, isolados ou unidos, que emprega a interpretação de papéis;
- a Sociometria, ciência da medida do relacionamento humano, que utiliza métodos sociométricos;
- e a Sociatria, ciência do tratamento dos sistemas sociais, que utiliza, principalmente, a psicoterapia de grupo, o psicodrama e o sociodrama

O termo psicodrama, no entanto, popularizou-se, através do próprio Moreno, e vem sendo utilizado, não apenas como um dos recursos da Sociatria, mas como designação de seu sistema como um todo. E será desta forma que estarei utilizando-o, pois ao meu ver, seria extremamente empobrecedor estar se falando sobre este tema, referindo-se apenas a um dos métodos sociátricos, sem entrar nas discussão de se esta separação é real em muitas de nossas ações.

       Isto posto, procuro no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa o significado de relações, e encontro:
Relações: 1.       Conhecimento recíproco e/ou convivência entre pessoas; relações de amizade; relações profissionais; cortar relações. 2. As pessoas com quem se mantém relações. 3. As ligações e associações entre grupos ou países no campo dos negócios ou dos assuntos diplomáticos.

       No momento não me sinto preparada para falar sobre a terceira definição, embora me pareça extremamente sedutora e muito próxima da proposta Moreniana em termos de uma sociatria global.
A segunda, a meu ver, não é satisfatória por utilizar-se do próprio termo. Opto, então, pela primeira: Conhecimento recíproco e/ou convivência entre pessoas.

       Finalmente, pesquiso o termo humanização, e eis que encontro o substantivo definido pelo verbo, não ajudando muito:
Humanização: ato ou efeito de humanizar-se.
Procuro então o verbo:
Humanizar: 1. tornar humano; dar condição humana à; humanar. 2. Tornar benévolo, afável, tratável; humanar. 3. Fazer adquirir hábitos sociais polidos; civilizar. 4. Bras., CE. Amansar (animais). 5. Tornar-se humano; humanar-se.

       Continuo não me satisfazendo, pois ainda não está claro o significado de humano, mas já começo a poder me definir, ao menos pela negação:
Será que poderia estar falando em Psicodrama como método de trabalho, para tornar alguém benévolo, afável, tratável? Em relação a quem? Ao outro? A si mesmo? 
Ou, tornar as relações afáveis?

       Poderia estar falando em Psicodrama como instrumento para fazer alguém adquirir hábitos sociais polidos? Isto é ser civilizado?

Ou, poderia falar em amansar?

       Pode até parecer que estou aqui logrando, tapeando, por não ter o que escrever nas três laudas que me pediram, mas não é não, isto é sério!
Quando nos pedem um trabalho de humanização nas relações, em qualquer âmbito, o que estão nos solicitando? Que façamos um trabalho de adestramento, no mínimo "Vitoriano", para que todos de dêem bem, dentro de certas regras estabelecidas? Que todos se adeqüem, compreendendo-se magicamente uns aos outros? Que todos saiam do trabalho realizado, felizes, se pseudo "amando", para depois de uma semana voltar tudo ao que era antes?

       Esta não é, nem pode ser a proposta psicodramática!
Acho que falta definir-se o humano.
Volto no famigerado Aurélio, e encontro:
Humano: Pertencente ou relativo ao homem; natureza humana; gênero humano.

       Desisto do Aurélio!
Para nós, psicodramatistas, o que distingue o ser humano dos outros seres, senão seu potencial relacional que lhe permite observar ao outro, a si mesmo e buscar seu potencial criativo, sua capacidade de criar novas respostas, livre de programações genéticas instintivas, repetitivas?

       A partir daqui, então, acho que podemos falar no Psicodrama e a Humanização das Relações, traduzindo-se em : Como o legado filosófico, teórico e técnico Moreniano, pode estar contribuindo para um conhecimento e/ ou convivência entre as pessoas, de forma saudável, onde preponderem a espontaneidade, o respeito consigo mesmo e com o outro.
Quando uma pessoa ou um grupo nos procura, é porque está com dificuldades no estabelecimento de suas relações. Nosso trabalho consiste em desenvolver sua espontaneidade, para que possa criar novas respostas, já que aquelas que tem dado, não tem se mostrado eficazes. Para tanto, devemos pesquisar a (as) relação (ões) em foco, para que os sentimentos que estão bloqueando sua ação efetiva, sejam elaborados.

       Esta busca do encontro, nem sempre é suave. Como Fonseca coloca, "begegnung" significaria "confrontação ou confrontamento, confronto. Contato de corpos, oposição de luta, ver e perceber, tocar e penetrar no outro, compartir e amar, comunicar-se de maneira primária, intuitiva, por meio da linguagem e gestos, pelo beijo ou o abraço levando ao "uno". Compreende, então, não só o amor, mas também as relações hostis e ameaçantes..."

       Este é o nosso trabalho, uma tarefa árdua para as duas partes: para o diretor e para o protagonista (entendendo-se aqui, que o protagonista pode ser um grupo).
Quando, no entanto, estamos em nossos consultórios, como clínicos, esta, torna-se menos difícil, pois temos diante de nós, pessoas que, conscientes de suas dificuldades, vem em busca de auxílio. Torna-se bastante mais complexa, quando somos chamados em instituições, em que nem sempre os obstáculos relacionais estão conscientes, onde nem sempre as pessoas envolvidas estão disponíveis a enfrentá-los e onde na maioria das vezes se espera um trabalho "mágico", em que através de jogos e brincadeiras, todos saiam felizes e se amando.

       Poucas são as instituições e pessoas que se abrem para um trabalho efetivo de elaboração de sentimentos e valores mútuos, que não necessariamente levam ao amor, à amizade, mas à disponibilidade e o respeito.
Encerro aqui com um dos meus poemas prediletos do "As Palavras do Pai":

Esta é a minha oração:
Que todos os seres O encontre.
Mas, se alguns ficarem
que não tenham Te encontrado,
que ao menos encontrem a um homem
que tenha Te encontrado.
Mas, se ainda alguns ficarem
que não tenham encontrado a um homem
que tenha Te encontrado,
permita-lhes, ao menos,
encontrar
Tuas palavras.
Mas, se ainda alguns ficarem
que são cegos e surdos para as palavras
que Tu tens falado,
tenha piedade deles
e deixa-os nascer.
Que todos os seres nasçam pelo menos uma vez.

E, com a poesia de Chico Buarque:

Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer...
Vem, por favor não evites, 
Meu amor, meus convites,
Minha dor, meus apelos...
Vou te envolver os cabelos
E perder te em meus braços
Pelo amor de Deus...
Vem que eu te quero fraco,
Vem que eu te quero tolo,
Vem que eu te quero todo meu

Ai, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender 
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar.
Eu quero te contar,
Das chuvas que apanhei,
Das noites que varei,
No escuro a te buscar...
Eu quero te mostrar,
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus!
E agora que cheguei...
Eu quero a recompensa:
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus.
 

Rosa Lidia Pacheco Pontes
2002