O Psicodrama na Construção e Desenvolvimento de Equipes

I. A Construção e o Desenvolvimento dos Pequenos Grupos em nossa Sociedade

       - Ano 2000: O século XX está em seu último ano.

       - A humanidade caminha celeremente e com altíssima tecnologia para seu terceiro milênio D.C. Os estudos arqueológicos e antropológicos marcam 50 milênios de existência do homo sapientiae.

       - Mês de Janeiro - Coordenadores de ensino e professores de 8ª série de um colégio particular, reúnem-se para discussão e programação do novo ano letivo. O assunto em pauta, é a redistribuição das classes: são seis classes na série, cada uma com aproximadamente 40 alunos. Estes devem ser redistribuídos nas turmas, pois a filosofia da escola é de que os jovens devem aprender a socializar-se. Repetem neste momento, um ritual de todos os anos.

       - Coordenador: - A turma A foi mal dividida no ano passado, o coordenador deixou que se juntassem todos os terríveis e esta classe tornou-se inviável, enquanto a turma C estava extremamente apática. Temos que misturar muito bem os alunos destas duas turmas com as demais que já estavam mais heterogêneas. Temos aqui a nossa disposição a avaliação de cada turma, quanto à disciplina e distribuição de notas. Temos ainda, as fichas de cada aluno com sua posição quanto a estes dois aspectos e que estão agrupadas segundo "as panelas". Como sabem, teremos que formar seis novas classes, de forma a contrabalançar os aspectos nota e disciplina e tentar ao máximo desmanchar as panelas; quando, muito deixaremos dois juntos, mas nunca os mais próximos.

       - Mês de Fevereiro - Início das aulas

       - Aluna B, chegando em casa após o primeiro dia de aula:

       "- Mãe! Mãe, sabe o que aquele coordenador ridículo, imbecil, Ai, que ódio! fez? Desmontou de novo todas as classes! Eu caí na turma C, a Fernanda, na turma D e a Patrícia, na turma B. Eu detesto todo mundo desta classe! Ninguém tem nada a ver comigo! Ah, mãe, porque todos os anos eles tem que fazer isso? Você precisa ir falar com aquele besta, ele tem que mudar! Eu já fui falar com ele e ele me disse que não sabe porque tanta frescura, que eu já devia estar acostumada, que todo o ano reclamo e depois acabo gostando da classe. Ai, que ódio! Também ele vai ver, se ele não me puser pelo menos com a Fernanda, eu vou zonear e vou passar o recreio inteiro só com ela e o resto da minha turma. Nós já combinamos."

       - Mês de Janeiro - Orientador Pedagógico de uma escola do Estado pega as pastas dos alunos de seis classes de 8ª série e juntamente com a secretária da escola inicia sua tarefa de todo o início de ano, remontar as classes.

       - Coordenador: - Bem, não vamos ter tanto trabalho assim. Você já separou as fichas dos novos? Ah, aqui estão. Veja, recebemos 30 novas matrículas, o que já praticamente dá uma classe. Vamos ver, tem cinco repetentes de dois anos, separe. Aqui temos mais três repetentes de três anos, também separe, estes teremos é que por naquela classe de mais velhos. São cinco mais três, oito. É está bom, daquela classe 6 foram transferidos e 5 repetiram, o que dá 11. Ah, esta ótimo! Ela fica um pouco menor, o que é bom, pois fazem muita bagunça. Puxa, mas agora ficamos com 22 novos, o que é pouco para uma classe. Mas, podemos então juntar estes com os mais novos das outras turmas, é acho que assim ficará bom. Separe as fichas....

       - Mês de Maio nas duas escolas: Professores começam a dar trabalhos em grupo. Haverá uma Feira de Ciências para apresentar no dia das mães e os alunos já devem começar a preparar-se para a feira de profissões em Agosto.

       - Professor de Ciências: "Números de 01 a 10 formam o primeiro grupo. Alunos de número de 11 a 20, o segundo grupo, e assim sucessivamente. Anotem, para o primeiro grupo o tema será....."

       - Coordenador:"Alunos de número 05, 10, 15, 20, 25, 30, 35, 40, levantem-se. Vocês formarão a primeira equipe, que deverá começar a pesquisar sobre Direito. Podem sentar-se...."

       - Acabo de ilustrar aqui o caso de duas escolas fictícias, mas que foi baseado em escolas reais e quem já trabalhou ou ainda trabalha com Educação sabe bem disto. Ainda, o que foi mostrado através de instituições educacionais, poderia se transposto para empresas, que na tentativa de modernizar-se, de implantar seus Programas de Qualidade, resolvem montar equipes de trabalho, ou para instituições de Saúde que montam grupos para gestantes, hipertensos, ou quaisquer outros. A realidade é a mesma. Os critérios que tem sido utilizados para montagem de grupos são os mais variados: por turnos, por idade, por repetência, por disciplina, por conveniência de horários, por conveniência da equipe responsável e assim por diante.

       - Uma vez formados os chamados grupos, pois, um monte de gente, ou agrupamento, imediatamente passa a ser chamado de grupo, estes devem iniciar seu processo de produção e serão certamente avaliados por isso, quer seja com notas, prêmios ou aumentos salariais.

       - Existe até aquela brincadeira, que diz que Deus fez o mundo todo sozinho, até que um dia, já cansado, resolveu propor um trabalho em "grupo" e daí surgiu aquele bicho desengonçado, que é o camelo com uma cabeça pequena demais para o corpo, com pescoço extremamente comprido e fino e ainda por cima torto, com dois moringos nas costas e patas horrorosas, ou seja, o somatório de várias produções individuais.

       - Nesta estrutura, tem até aqueles indivíduos que tentam adaptar-se, e pouco a pouco a custa de muito desgaste e sofrimento, vão formando seus parzinhos e sobrevivem. Sua criatividade? Certamente muito aquém de suas potencialidades. Sua produtividade? Longe, muito longe de sua capacidade. Seu grau de frustração? Enorme... Mas, adaptam-se.... Existem aqueles que reúnem forças, e possuidores de uma auto-estima mais alta, relutam e fogem do sistema, tentando encontrar uma estrutura mais de acordo consigo mesmos. Mas existem aqueles que, não conseguem adaptar-se, nem procurar algo mais próximo de seu jeito de ser e passam a ser os isolados ou rejeitados, os considerados doentes, o "proletariado sociométrico".(8)

II. O Referencial Moreniano

       - Moreno, há mais de meio século, já denunciava tal situação e se propôs a desenvolver o que chamou a "Teoria do Homem Social"(8), criando não somente instrumentos para se avaliar e medir as inter-relações, como todo um corpo teórico com conceitos e leis extraídos da realidade através de pesquisas e observações. Observou as tentativas da humanidade, tanto através da religião, como dos sistemas socio-políticos, e da psicologia, de estruturar-se de uma forma mais saudável amenizando o conflito inerente entre o indivíduo com suas necessidades e a convivência social natural de sua espécie, com resultados pouco eficientes. Percebeu o quanto a sociedade humana permanecia infeliz. Sua idéia norteadora era de encorajar os indivíduos a procurarem sua família sociométrica, ou como diriam hoje os adolescentes, "procurar sua praia", um lugar baseado em suas escolhas. Para ele, "os sistemas sociais consistem em sistemas de preferência ou atração - rejeição - neutralidade.(8) "Seu sonho era "...criar uma sociedade dinâmica com reformulações contínuas: uma sociedade ideal, onde cada pessoa encontre sua família sociométrica." Não ficarmos amarrados a determinismos biológicos onde a criança nasce e aí fica inexoravelmente unida... Em 1930, ele já questionava a família: Porque deixar-se enganar por rede que nos rejeita ou nos quer destruir?" "O homem deve eleger e estabelecer sua vida junto a quem o elege." (1)

       - Para viabilizar as primeiras pesquisas neste sentido, elaborou o conceito de "critério sociométrico". Até então (como infelizmente até hoje), acreditava-se que as escolhas eram realizadas de forma totalitária, ou seja, as pessoas seriam escolhidas ou não para quaisquer atividades, baseadas somente no afetivo (ou gosto, ou não gosto). Segundo Moreno, critério sociométrico é "o motivo ou motor comum que direciona os indivíduos com o mesmo impulso espontâneo a um determinado fim" (4). Bustos acrescentou: "Existem tantos critérios sociométricos quantas as ações que o ser humano tem e, com o crescimento, elegem-se distintas pessoas para outras tantas atividades... Os critérios podem ser agrupados em operativos quando, fundamentalmente se quer cumprir uma tarefa e afetivos quando é privilegiada a parte emocional da tarefa..." (1)

       - Portanto, um instrumento que permitisse avaliar as escolhas dos indivíduos para uma determinada atividade ou situação, poderia estar garantindo a formação de grupos mais integrados, criativos, produtivos e felizes. Assim nasceu o Teste Sociométrico, instrumento que visava motivar os próprios indivíduos a transformarem-se em pesquisadores, interessados em si próprios.

       - Pode-se então a partir daí, observar, que os grupos tinham estruturas sociais particulares e que portanto, como o próprio Moreno dizia, podia-se "começar a trabalhar efetivamente por uma grande justiça psico-socio-econômica e começar a organizar grupos reais, de forma que a produtividade possa progredir e considerar cada indivíduo segundo suas próprias necessidades." (8) "A Sociometria descobriu um série de princípios (de regularidades), que exprimem uma influência das forças supra-individuais e sociais sobre o destino dos indivíduos do grupo" (7). Moreno denominou estas regularidades de Leis. Falou sobre a Lei Sociogenética, dizendo que pode se observar, que o grupo tem uma estrutura de valores a ele peculiar e que os indivíduos tanto mais serão incorporados no grupo, quanto mais seus valores se aproximarem daqueles e o contrário, tanto mais tenderão a serem excluídos e rejeitados, quanto mais seus valores se distanciarem daqueles. Descreveu ainda a Lei Sociodinâmica, onde afirma que os indivíduos isolados ou com baixo status sociométrico em um grupo tendiam a estar isolados também em outros grupos a que pertençam e que ao contrário, aquelas pessoas com alto status sociométrico em um grupo, tendiam a manter esta posição nos demais grupos sociais que faça parte. Pode constatar ainda e descrever a Lei de Gravitação Social e a Lei da Rede Interpessoal e Sócio Emocional, que no momento apenas serão citadas.

       - Através, portanto da observação destas regularidades, Moreno pode caminhar um tanto mais em relação a sua proposta de formação de grupos mais saudáveis, que garantissem mais as realizações dos desejos de seus integrantes. Observava, que as pessoas rejeitadas em um grupo, podiam ser incluídas em outro grupo, com outra estrutura de valores, adquirindo algumas vezes, até um alto status sociométrico.

       - Pode então demonstrar que grupos estruturados a partir de escolhas realizadas sociométricamente, aumentavam a produtividade, a qualidade, ganhavam na economia de tempo e de material, sendo mais saudáveis, na medida em que "...a desorganização da personalidade está estritamente ligada à desorganização do grupo..." (8).

       - Uma outra descoberta importante de Moreno, com relação à montagem de grupos ou equipes, foi também realizada através de pesquisas na Comunidade de Hudson, quando investigou a "Expansividade Emocional". "O teste de expansividade emocional mede a energia emocional de determinado indivíduo, tornando-o capaz de segurar a afeição de outros indivíduos por dado período de tempo, diferindo da expansividade social, que é meramente, o número de indivíduos com quem o sujeito estabelece contato social, não importando se é capaz de mante-lo ou não... A expansividade emocional está mais diretamente relacionada ao comportamento e à ação do que o teste sociométrico, mais abrangente. Aqui não importa quantas pessoas são escolhidas, mas quantas determinado indivíduo pode manter e satisfazer em suas necessidades imediatas..." (6) Na construção de pequenos grupos, esta descoberta tão pouco veiculada, até mesmo no meio psicodramático, é de grande importância, desde se pensarmos na família, como o grupo social mais importante de nossa sociedade, bem como em qualquer outro agrupamento, na medida em que define que mesmo os indivíduos escolhidos, podem ser excluídos se for ultrapassado este referencial que é variável e individual.

       - Portanto, no que se refere à construção de pequenos grupos, Moreno não somente pesquisou, como comprovou que a diretriz básica, que vem a garantir tanto o bem estar dos indivíduos, quanto a sua produtividade, está em cada pessoa poder estar escolhendo com quem deseja estar em cada momento e em cada atividade que realiza. Forneceu ainda os instrumentos necessários para que esta seleção possa efetivar-se, bem como as Leis a serem observadas por quem os utiliza. Seu referencial, tanto do ponto de vista teórico quanto prático veio a preencher as necessidades, daqueles que dedicam-se a atividades grupais e preocupam-se não somente com a realização de seu trabalho, como principalmente com o bem estar dos seres humanos.

       - Quanto ao desenvolvimento dos pequenos grupos, Moreno forneceu-nos mais pistas do que nos mostrou os caminhos. Suas pistas iniciaram-se com sua "Teoria do Self", onde descreve o desenvolvimento relacional e portanto afetivo-emocional dos seres humanos a partir de seu conceito básico de "Matriz de Identidade" com suas fases, e com suas análises de sociogramas grupais. Restou-nos a associação de ambos. Atualmente, podemos afirmar, que os grupos desenvolvem-se, seguindo fases similares às do indivíduo isolado só que sem dúvida em menor espaço de tempo.

       - Podemos dizer que quando um amontoado de pessoas se reúne, estão vivendo uma fase de indiferenciação, no caótico-indiferenciado em relação àquele papel experienciado. Não existe reconhecimento do Eu e do Outro. Muito rapidamente, no entanto, este processo de reconhecimento inicia-se de forma simultânea, e os elementos começam a relacionarem-se em pares. Este é um momento muito importante no desenvolvimento dos grupos, pois é quando as percepções podem iniciar-se de forma saudável ou transferencial.

       - Dependendo do grau de segurança que os indivíduos comecem a sentir nestes pares, o grupo pode evoluir para a formação de relações triangulares, que será o seu grande passo para a circularização, visto que esta é composta pelo somatório de triângulos existentes na configuração. Esta é a configuração da coesão grupal. Como cita Bustos: "Aqui a relação se conserva sem a necessidade de um controle direto: há maior mobilidade entre os vínculos estabelecidos..." (1)

       - O profissional que trabalha com grupos, ao compreender a postura Moreniana perante o mundo, de posse destas dicas já elaboradas por profissionais dedicados ao Psicodrama aqui mesmo no Brasil há quase 20 anos, como é o caso de José Fonseca Filho, está de posse de um excelente instrumental de trabalho, que se bem conduzido poderá lhe trazer não somente grande realização, como o bem estar de grande número de seres humanos. Estará enfim, cumprindo os ideais Morenianos do Projeto Socionômico.

       - Para finalizar este breve resumo teórico, gostaria do fazer mais uma citação de nosso mestre: "As numerosas contribuições à biologia social de Aristóteles, Adam Smith, Comte. Fewerbach, Spencer, Darwin, Espinosa e Kropotkin tem a mesma orientação e sustentam os achados sociométricos em outros domínios da vida. Todos eles tinham já visualizado as forças de atração e repulsão recíprocas nas sociedades humanas e animais. As forças de cooperação são biológicamente mais importantes que as forças de destruição. Se a cooperação não tivesse sido a força mais importante, as formas animais mais complexas não teriam desenvolvido a partir das mais simples. Criatividade e produtividade crescem com mais intensidade em grupos baseados em auxílio mútuo do que em grupos reunidos por acaso, ou em grupos cujos membros são meramente hostis." (7) "Assim não se pode rejeitar a Sociometria e classificá-la nas disciplinas unicamente acadêmicas e universitárias. Ela foi, desde o início, uma ciência revolucionária que tende a modificar a sociedade, não tendo sido outra coisa a não ser uma ajuda na liberação das pessoas."(8)

III. Relatos da utilização do Referencial Moreniano na construção e desenvolvimento dos pequenos grupos (experiências práticas)

       - Voltando à nossa realidade, o que vemos é quase que uma total ignorância de todo este trabalho desenvolvido por um grande gênio. Temos ao nosso dispor, não somente o teste sociométrico em si, mas todas as suas possíveis adaptações escritas, orais ou dramáticas, para estarmos montando grupos encima de critérios sociométricos que visem a reunião de pessoas que se escolham, que se aceitem dentro de um sistema de valores semelhantes.

Construção de Equipes

       - Tenho tido a oportunidade de nos últimos 13 anos estar realizando a seleção de grupos de alunos para cursos de Psicodrama Aplicado e Terapêutico, procurando respeitar os ensinamentos de Moreno. Posso dizer que obtive excelentes resultados: o número de desistências caiu consideravelmente, bem como o grau coesão foi muito aumentado, gerando turmas cooperativas sem grandes conflitos latentes. O trabalho é extremamente simples, baseia-se em transformar os próprios elementos participantes em selecionadores. O clima estabelecido é honesto e democrático. A seleção desenvolve-se em três etapas:

- Conhecimento do que é o Psicodrama e avaliação por parte dos candidatos se corresponde às suas expectativas.
- Conhecimento real da instituição, com suas qualidades e defeitos, visando dar a oportunidade dos candidatos escolherem se é ali mesmo que desejam estar.
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Desenvolvimento de uma atividade psicodramática, que consiste em o grupo estar criando um personagem para cada elemento participante e posteriormente realizar uma dramatização.

 

       - A leitura sociométrica deste processo é riquíssima. Podemos avaliar desde o tempo que os elementos levam para desenvolver cada personagem, que é bastante variável de indivíduo para indivíduo, dependendo, do quanto este se deu a conhecer, bem como a semelhança ou diferença de status entre cada personagem no grupo como um todo, o que nos dá uma noção muito próxima do realidade quanto os indivíduos se "encaixam" ou não, no referido grupo (Lei sociogenética). Como exemplo, posso citar um grupo que montou personagens todos de alto nível socio-econômico cultural (um cientista alemão que veio para o Brasil estudar espécies tropicais e gostou tanto do país que resolveu fixar residência, um jornalista que era correspondente internacional pela Time Life; etc.) E dentre estes criou uma personagem que era uma dona de casa, casada com um metalúrgico, morando em uma cidadezinha do interior. Havia feito apenas o curso primário e incompleto, mas era boa mãe e muito prendada. Todos moravam em São Paulo, com exceção desta mulher. Mostraram ainda dúvidas quanto a inclusão ou não de outra participante, quando atribuíram a ela a personagem de uma dentista que estava iniciando seu consultório em São Paulo, mas que tinha um noivo no Paraná que recusava-se a mudar para São Paulo, fazendo com que a personagem ficasse em conflito entre sua vida profissional e afetiva-emocional, mas no decorrer da dramatização colocaram-na optando pelo profissional. Podemos avaliar, ainda o grau de saúde perceptual do grupo: O índice de coincidências entre os personagens criados com o real do candidato é altíssimo. Os candidatos chegam a expressar, que "Isso até parece bruxaria".

       - Tenho ainda desenvolvido trabalhos em empresas, para realizar promoções de indivíduos de um mesmo grupo. O procedimento nestes casos, sem dúvida é diferente, mas os princípios que regem o trabalho são os mesmos: o próprio grupo como pesquisador, trabalhando com o esquema de escolhas.

Desenvolvimento de Equipes

       - Desde 1978, quando terminei minha formação em Psicodrama Terapêutico, venho dedicando-me ao estudo e aplicação do sistema socionômico, com extremo fascínio, mas até nove anos atrás, restringiu-me apenas a intervenções em grupos com dinâmicas já deterioradas. Com relação ao desenvolvimento de grupos novos, iniciei uma experiência, quando parti para um trabalho sociométrico de cunho mais preventivo do que curativo. Tenho me baseado na idéia de que os grupos seguem um processo de desenvolvimento das relações, semelhantes ao que a criança passa (como foi descrito anteriormente) e tenho me proposto a realizar um acompanhamento efetivo do grupo durante sua gestação, utilizando-me de jogos e recursos psicodramáticos. As fases que sinto como mais importantes de serem acompanhadas se referem ao desenvolvimento da percepção de si mesmo e do outro no referido papel: proporcionar neste momento uma revisão de como cada elemento desenvolveu este papel em outra situações ou grupos, tem sido muito enriquecedor para que cada participante se perceba na nova situação. Simultaneamente, cada um está se dando a conhecer para os demais, o que tem evitado o surgimento de muita s possibilidades transferenciais, com o conseqüente aumento das potencialidades télicas.

       - Quando esta fase é ultrapassada, procuro vivenciar com o grupo em desenvolvimento, situações triangulares e de inversão de papéis. Mesmo assim, os grupos sentem dificuldades, quando passa-se para atividades de circularização. Este tem sido um importante momento diagnóstico, em que o grupo conscientiza-se de suas dificuldades o procura encontrar novas formas de interação. Este projeto vem sendo desenvolvido não somente dentro de instituições psicodramáticas, como em empresas e instituições de saúde e educação. Os resultados tem sido bem avaliados, tanto pelos participantes ao final do processo, quanto pela observação do desenvolvimento destes grupos, ao longo do tempo.

       - Tenho podido afirmar, que este trabalho, com a construção e o desenvolvimento das equipes, não somente tem sido muito realizador, e como tem trazido muita contribuição à maioria das pessoas que dele tem usufruído. Felizmente, tenho podido transmitir minhas experiências e idéias a novos colegas que puderam compreender a importância das propostas Morenianas e que quiseram compartilhar comigo este caminho e já vem realizando trabalhos de construção e desenvolvimento de equipes nos mais variados setores de nossa sociedade (comunidades, escolas, empresas, e instituições de saúde). Através deste trabalho tenho podido me sentir participante de um processo revolucionário como pretendia Moreno. 

 

IV - O uso do Referencial Moreniano na Construção e Desenvolvimento dos pequenos grupos em nossos dias

       - Do ponto do vista social mais amplo, o que se encontra, nos mais diversos setores é a formação de pequenos grupos ou equipes, sem a mínima preocupação com os elementos que deles participarão. Como relatei de início, os critérios utilizados são os mais variados, menos o sociométrico. Parece não ocorrer a ninguém, perguntar aos próprios interessados no processo, com quem gostariam de estar.

       - Uma vez formados os grupos, imediatamente este é cobrado de produzir, sem a menor preocupação com a leitura de seu estágio de desenvolvimento e portanto de sua possibilidade criativa e produtiva. Quando os grupos começam a "produzir muitos camelos", as relações chegam a nível do insuportável, ocasionando perdas de elementos muitas vezes irrecuperáveis e a desmotivação imperando, aí, ou o próprio grupo tenta lançar mão de seus parcos recursos de saúde e espontaneidade restantes e procuram sozinhos, aos "trancos e barrancos" rever-se, ou solicita-se a presença de alguém que "entenda de grupos" para ver se dá tem jeito.

       - Porque será, que continua se dando as mesmas respostas, tendo já ficado claro que não tem sido adequadas, que não tem resolvido nem problemas de produção, nem desenvolvido o bem estar do seres humanos?

       - Tenho me perguntado, se dentro de uma estrutura social como a nossa, baseada em valores autoritários, desde a sua colonização, não existe um medo e uma insegurança por parte dos responsáveis (chefes e gerentes, diretores e coordenadores de ensino, profissionais em geral) em criar e desenvolver grupos mais saudáveis e mais coesos? Não seria uma ameaça a seus modelos interiorizados de autoridade? Não os levaria a ter que rever-se em atitudes e posturas muitas vezes conservadas desde a tenra idade? Muitas vezes pode parecer mais fácil administrar os prejuízos que lidar com o desconhecido, afinal, como colocou Fonseca (2), "...Uma grupo adulto apesar do afetivo relacionamento com o coordenador, questiona-o e não aceita, necessariamente, todas suas intervenções... " 

Rosa Lidia Pacheco F. Pontes

 

       - Adaptação do texto apresentado em Mesa Redonda realizada no 10º Congresso Brasileiro de Psicodrama - 1996 - Caldas Novas - Goiás. 

 

V- Referências Bibliográficas

     1 - Bustos, D. M. - O Teste sociométrico - Fundamentos, Técnicas e Aplicações - Editora Brasiliense - São Paulo, S. P. - 1979.

     2 - Fonseca Filho, J. S. - Psicodrama da Loucura - Correlações entre Buber e Moreno. Editora Ágora,São Paulo, S. P. - 1980.

     3 - Menegazzo, C. M. e Col. - Dicionário de Psicodrama o Sociodrama - Editora Ágora, São Paulo, S. P. - 1995. 

     4 - Monteiro, R. F. e Col. - Técnicas Fundamentais do Psicodrama - Editora Brasiliense, São Paulo, SP - 1993. Artigo: O Teste Sociométrico de Fani Goldenstein Kaufman.

     5 - Moreno, J. L. - Fundamentos de la Sociometria - Editorial Paidós - Buenos Aires - 2ª edição - 1972.

     6 - Moreno, J. L. - Quem Sobreviverá - Fundamentos da Sociometria, Psicoterapia de Grupo e Sociodrama - Livros I, II e III - Dimensão Editora, Goiânia, GO - 1992 - 1994 

     7 - Moreno J. L. - Psicoterapia de Grupo e Psicodrama - Editorial Psi - Campinas, S. P. - 1993.

     8 - Moreno, J. L. - Foundements de La Sociométrie - Presses Universitaires de France, Paris - 2eme edition.