O Psicodrama Aplicado

       - O aspecto racional do ser humano tem avançado celeremente, criando um universo altamente tecnológico de rápidas transformações. Somos colocados diariamente em contato com novas realidades que nos exigem posturas novas, sendo que na maioria das vezes conseguimos assimila-as racionalmente, mas percebemos que nossas ações não caminham junto.
Nosso aprendizado é realizado através da introjeção de conceitos e normas sociais que passamos a viver inconscientemente como naturais. Não aprendemos a questionar e tornamo-nos escravos de nossas próprias idéias. Nossa educação não prioriza a espontaneidade.

       - Desta forma, estamos vivendo um momento de grandes conflitos: a mulher e o homem que a sociedade nos preparou para ser, já não são os mesmos que somos cobrados de ser; a relação que estabelecemos com nossos pais, e que é a única que conhecemos, já não nos serve mais como modelo para lidarmos com nossos filhos; o chefe que tivemos, não serve para nossos funcionários; os padrões morais, sexuais transformaram-se.

       - A única forma de lidar com este universo em rápida e constante transformação é a tomada de consciência de nossos valores e sentimentos e o desenvolvimento da percepção da realidade, para que possamos notar as mudanças ocorridas e reformularmos nossos conceitos, revermos as normas sociais introjetados, recuperando a espontaneidade, transformando-nos.

       - Infelizmente, a maioria das propostas educativas continua baseando-se no esquema pedagógico ultrapassado de transmissão de conhecimentos, ou seja, sob o título de conscientização, estão novamente impingindo idéias, teorias, em um esquema vertical, de fora para dentro, criando novas conservas culturais, deixando-nos da mesma forma desarmados para mudanças.

       - Os grupos de trabalho/aprendizagem são constituídos a partir dos mais variados critérios, sem considerar a importância da dimensão afetivo emocional. As equipes são formadas agrupando-se indivíduos e propondo-se tarefas e metas sem levar-se em consideração o estágio de desenvolvimento de suas relações, como se o mero fato de juntar-se mais de uma pessoa já constituísse um grupo.

       - O psicodrama Aplicado, por vencer as barreiras dos consultórios, pode chegar à população onde esta se encontra: nas empresas, nas escolas, nos hospitais, como agente transformador. Seus instrumentos básicos são o Role Playing e o Sociodrama. O Role Playing utilizado no desenvolvimento de papéis e o Sociodrama na construção e aprimoramento dos relacionamentos interpessoais e intergrupais, bem como na conscientização de valores culturais subjacentes tanto ao grupo em questão, quanto ao contexto social mais amplo em que está inserido.

       - Através do Role Playing, propõe-se a trabalhar com papéis específicos e o seu objetivo, ao contrário do treinamento, do adestramento, é de rever as normas, os conceitos, enfim os papéis tomados de forma acrítica e desenvolve-los, utilizando o potencial criativo dos indivíduos. Na medida em que propicia o contato mais profundo dos seres consigo mesmos, seus valores, suas emoções, permite a identificação e elaboração dos conflitos papel-pessoa, bem como a visão crítica destes papéis, identificando seus aspectos ultrapassados e inadequados. Oferece enfim, um desenvolvimento de papel rico e compromissado com a realidade: o participante re-cria o papel dentro de sis, enriquece-se e enriquece o papel. É agente transformador, desenvolvendo a espontaneidade dos indivíduos e da cultura.

       - Através do Sociodrama e instrumentos sociométricos, procura ressaltar a importancia da dimensão afetivo-emocional, propondo desde a formação de equipes, até sua construção, acompanhando seu processo de desenvolvimento: reconhecimento de si mesmo e do outro no papel, relações a dois, a três, circularização.

       - Ainda através do Sociodrama, busca-se a conscientização da cultura institucional, elaborando os possíveis conflitos e necessidades de mudança. Diferencia-se basicamente do Psicodrama Clínico, por seu "setting" e pelo contrato estabelecido (conforme os objetivos). O cliente do Psicodrama Aplicado quer seja na empresa, na escola ou na instituição, na maioria das vezes não escolheu por si mesmo, o momento, o profissional ou o grupo de que fará parte. Exige, portanto, do profissional cuidados éticos especiais. Os papéis a serem desenvolvidos devem estar claramente explicitados para o coordenador e para o grupo, e seus limites firmemente observados. Esta diferenciação do clínico, no entanto, não significa a negação da dimensão afetivo-emocional do Psicodrama Aplicado. A desconsideração deste aspecto tem sido a grande responsável pela robotização e conseqüente desumanização que temos sofrido.

"Não sois máquinas. Homens é que sois"

 C. Chaplin

Rosa Lidia Pacheco Pontes
2000