
Diagnóstico em Pequenos Grupos - A palavra diagnóstico vem do grego "diagnostikos" e significa hábil ou discriminar. A Enciclopédia Larousse Cultural assim define:1. A arte de conhecer as doenças pelos seus sinais e sintomas. 2. Identificação da natureza de um problema, de um dificuldade, de um mal, etc.; pela interpretação de seus indícios exteriores. E acrescenta ainda a definição da Enciclopédia Médica: O diagnóstico é o tempo do ato médico que permite determinar a natureza da doença observada e classificá-la num quadro nosológico. Distinguem-se o diagnóstico clínico, estabelecido pela conversa com o cliente, seguida de exame físico completo; o diagnóstico biológico, baseado nos resultados de análises laboratoriais, exames radiográficos, etc.... - Quando estamos doentes e vamos ao médico, temos uma queixa: dores de cabeça constantes. Este nos ouve e começa a fazer uma série de perguntas, tentando identificar a origem ou a causa do mal para que possa tratá-la. Pergunta-nos se dói todos os dias, em qual período do dia é mais freqüente, que atividade tivemos antes de começar e assim por diante. Em seguida, realiza um exame clínico, onde mede nossa pressão arterial, examina garganta e ouvido, ausculta o coração, etc. A partir daí, levanta hipóteses diagnosticas e sugere exames laboratoriais e/ou radiológicos específicos. Somente após Ter recolhido todos estes dados é que conclui a origem da dor e prescreve a medicação. Para chegar à melhor orientação, o médico lança mão de vários recursos, realizando um diagnóstico.Quando um gerente chama um consultor (interno ou externo) de RH, em geral tem uma queixa; sua equipe vem apresentando dificuldades. Este, qual o paciente perante o médico, descreve alguns sintomas incômodos. Se ansiosamente, a partir da queixa, for sugerido qualquer tratamento, se estará procedendo qual o balconista de farmácia que prescreve Novalgina ao freguês que chega com dor de cabeça. Estará se "tratando" de um sintoma e não da causa. Ouve-se freqüentemente colocações do tipo: é um problema de comunicação, ou é um problema de proatividade, como dando-se um nome ao que se observa se tivesse o entendimento suficiente para um tratamento.Ora, da mesma forma que uma dor de cabeça pode ter muitas origens, a falta de proatividade em um grupo também. Ao prescrever se um programa de treinamento que já deu bons resultados em outra equipe, corre-se o risco de não se resolver o problema, ou mascarar o sintoma que voltará a aparecer posteriormente e algumas vezes com mais força.O consultor deve, portanto, ter seus métodos de análise, seu procedimento diagnóstico. Para que possa dar a melhor orientação e "prescrever o tratamento" mais adequado, necessita compreender melhor a origem do ou dos sintomas.Do ponto de vista psicodramático, o primeiro conceito que ocorre, no sentido de se obter uma maior compreensão dos sintomas grupais, é o de Tricotomia Social. Moreno define que toda realidade social constitui-se na síntese dinâmica e na interpenetração da sociedade externa e a matriz sociométrica. Entendendo por sociedade externa todos os grupamentos palpáveis e visíveis, grandes ou pequenos, formais ou informais que compõe a sociedade humana e por matriz sociométrica todas as estruturas sociométricas invisíveis ao olho macroscópico mas que se tornam visíveis através do processo sociométrico de análise, ou seja, como se dão as escolhas neste grupo, a existência de sub grupos, enfim, sua configuração. Os dados obtidos sociometricamente, podem assemelhar-se ou não à observação macro, e pode-se afirmar que quanto mais distante estiver a matriz sociométrica da sociedade externa, maior o nível de conflito de um grupo.Quando o consultor olha para um grupo de funcionários de uma empresa, pode ter uma visão macroscópica, sem dúvida diferente da de seu gerente, pelo grau de envolvimento, mas ainda assim, macro. Estará entrando em contato com o social, palpável e visível, mas estará entrando em contato com apenas uma das dimensões, ou seja, com a sociedade externa. Para compreender verdadeiramente este grupo, deverá conhecer sua realidade social e para tanto deverá ter acesso à sua dimensão microscópica, à matriz sociométrica, pois nem "a matriz sociométrica nem a sociedade externa são reais ou podem existir sozinhas, mas é função da outra. Precisam fundir-se de alguma forma, para produzir o processo presente de vivência social."Um outro conceito que pode auxiliar neste processo de entendimento das dificuldades grupais é o de co-inconsciente. Moreno coloca que em qualquer vínculo que se estabelece, existem entre os envolvidos, paralelamente, aspectos claros e conscientes e outros inconscientes que vão se acumulando durante as experiências compartilhadas. Pode se entender por aspectos inconscientes, desde conflitos interrelacionais, até momentos traumáticos vivenciados e não elaborados, como, por exemplo, perdas de elementos, trocas de chefia, ou medo de demissão. - Continuando com a analogia, a equipe de que o gerente faz a queixa , precisa passar por um exame clínico e laboratorial que deve consistir desde a coleta de dados de forma macro, sob diferentes olhares, até o exame mais profundo de sua estrutura de relações e de sua história com seus aspectos conscientes e inconscientes. O exame clínico pode constitui-se de entrevistas individuais onde o consultor deve colher dados gerais que orientem sua pesquisa e os exames laboratoriais ou radiológicos, processos grupais de análise sociométrica ou sociodinamica. Entrevistas individuais iniciais - Sempre que se lança mão de qualquer instrumento, antes deve se ter claro, qual o objetivo, não só para que se escolha o mais apropriado, mas também para que se possa adaptá-lo da melhor forma possível as necessidades. - No caso das entrevistas diagnosticas deve se ter claro que se pretende colher o máximo de dados possíveis e de diferentes fontes, para que se possa ampliar a visão. Desta forma, o ideal é que sejam realizados com o maior número possível de elementos do grupo, sua(s) chefia(s), bem como, dependendo da queixa, com o maior número possível de clientes externos e internos. Nem sempre é possível entrevistar todos, mas deve-se pensar em um número representativo e de pessoas representativas (no caso de clientes). - Quanto à técnica, em um primeiro momento, o mais importante é esclarecer qual o objetivo do trabalho e deixar os participantes livres para falarem o que quiserem, introduzindo-se questões apenas relativas ao conteúdo que o próprio entrevistado fornece. É surpreendente o quanto o simples ouvir pode trazer de informações. Se se recorrer neste momento a alguma técnica específica, como a montagem do átomo social, pode se estar perdendo informações preciosas para a orientação do trabalho. - Neste momento, o Psicodrama aparece menos enquanto técnica, mas mais na postura do entrevistador e na leitura que este realizará dos dados coletados. - A análise das entrevistas, portanto, deve ser cuidadosa, pois muitos elementos interessantes podem surgir, desde aspectos relacionais, posturas individuais perante a queixa do grupo, dados referentes a história vivida. Estes dados muitas vezes aparecem dispersos nas diferentes falas. Cada um dos entrevistados, certamente fornece muitos dos aspectos conscientes da história do grupo, no entanto, os que fazem parte do co-inconsciente saem aos pedaços muitas vezes sem muito sentido, ou importância na análise de cada entrevista em particular. A leitura atenta de todas em conjunto pode fornecer ao consultor uma quebra cabeça que, bem montado, pode revelar aspectos importantes a serem pesquisados. - As entrevistas servem, portanto, a vários propósitos:
Processo Grupal Planejamento:- Muitas vezes percebe-se profissionais de RH muito ansiosos em definir a técnica a ser utilizada em seus grupos. Em campo tenso, procuram "o que fazer", buscando em suas memórias "dinâmicas" que leram ou vivenciaram. Continuando o paralelo médico, o equivalente a encaminhar o paciente para uma endoscopia, por ser um exame acurado que fotografa muito bem o esôfago e o estômago, mas que nada acrescenta à queixa de dor de cabeça a ser pesquisada. - Na seqüência, tal qual o médico que, a partir da coleta de dados do paciente e do exame clínico, levanta hipóteses diagnosticas que o orientam na escolha dos exames laboratoriais e/ou radiológicos, o consultor, de posse dos dados colhidos e analisados nas entrevistas iniciais, pode levantar hipóteses que o orientem na escolha do procedimento mais adequado a ser utilizado no processo grupal, para que tenha acesso à matriz sociométrica do grupo ou a dados importantes de sua história. - Neste momento é que o conhecimento da Teoria Moreniana prevalece. Para que realize uma boa analise do material coletado nas entrevistas, levante hipóteses e selecione o melhor recurso técnico para o seu prosseguimento diagnóstico, o consultor deve Ter interiorizado todos os conceitos psicodramáticos e suas interrelações. Os fundamentos da sociometria são essenciais. Infelizmente, a sociometria tem sido reduzida ao teste sociométrico e muitas vezes se tem dificuldade em percebe-la na leitura dos fenômenos relacionais do cotidiano. Deve estar claro que o teste sociométrico não é o único meio de que se dispõe para se ter acesso à matriz sociométrica de um grupo e que, além do mais, na maioria das vezes, em empresas não é o instrumento mais adequado. Se o consultor tiver os conceitos bem sedimentados, já poderá estar percebendo relações e conflitos desde as entrevistas verbais. O trabalho dramático que realizará em forma grupal terá a finalidade de comprovar ou não, através de técnicas sociométricas, sua visão inicial. - Pode recorrer a jogos psicodramáticos já relatados nos livros especializados de Psicodrama, à adaptações de jogos de autores de Dinâmica de Grupo, a jogos criados por ele próprio tendo em vista seus objetivos ou a uma dramatização emergente do próprio grupo. Se suas hipóteses estão claras, de posse de todo seu arcabouço teórico, não fica difícil selecionar o recurso técnico mais adequado. - No planejamento do trabalho grupal, o consultor deve ter ainda presente a necessidade de organizar sua intervenção, seguindo sempre as etapas da sessão psicodramática. A etapa de aquecimento é muito importante nesta situação, não só por tratar-se de um trabalho dentro de uma organização que implica em uma maior dificuldade em se sair do contexto social para o grupal, mas também pelo fato de ser uma intervenção diagnostica que sempre necessariamente leva os participantes ao levantamento de muitas fantasias. O grupo deve sair do campo tenso para que sua espontaneidade seja liberada e se possa realmente ter acesso a sua matriz sociométrica. - Outro aspecto a ser lembrando é que o método a ser utilizado deve levar em conta os pressupostos básicos do Psicodrama de se trabalhar com conteúdos de dentro para fora e do livre para o lógico, sempre dentro de uma postura de horizontalidade. A entrevista grupal - O consultor deve estabelecer uma relação horizontal com o grupo, vinculando-se de forma a entrar como co-participante. Sua função é transformar todos os elementos em co-diretores, envolvendo-se na proposta de diagnosticar. - Desta forma, em seu planejamento, já deve ter elaborado qual ou quais instrumentos utilizará para obter o maior número de dados possível, entrando na rede de comunicação emocional do grupo, aproximando-se de sua matriz sociométrica e de seus eventuais conflitos co-inconscientes, sempre buscando os conteúdos de dentro para fora. No entanto, deve ter claro que a garantia do sucesso de seu trabalho estará na liberação da espontaneidade do grupo. O consultor deve estar livre para usar a sua espontaneidade, para perceber o que o grupo lhe diz e poder mudar completamente o rumo que havia programado, caso sinta necessário, pois o "melhor planejamento" será insuficiente se não responder às necessidades do grupo. - Uma das grandes características, vantagens e beleza do diagnóstico psicodramático é que ao contrário de outros métodos, este é realizado o tempo todo pelo próprio grupo, podendo se notar, inclusive já após a intervenção, modificações nas interrelações e no comportamento do grupo como um todo. O papel do consultor/diretor deve ser o de criar condições favoráveis para que estes conteúdos possam emergir de forma saudável e construtiva. A devolutiva: - Após a realização da entrevista grupal, o consultor terá que realizar um trabalho cuidadoso de todo o material obtido, desde as entrevistas individuais, sempre lendo os resultados sob o enfoque teórico Moreniano. É recomendável que realize esta tarefa juntamente com seu ego auxiliar, que poderá ter observado situações e sentimentos que em seu papel de diretor, o consultor possa não ter acessado. - Sem dúvida durante a realização do trabalho em si já pode ter uma boa percepção de onde residem as maiores dificuldades do grupo, mas esta análise posterior permite, até pelo distanciamento, associar-se alguns aspectos que, no momento, isoladamente pareciam sem importância. Muitas vezes permite o desenho de um sociograma e a percepção de importantes aspectos relacionais. Rosa Lidia Pacheco Pontes |