Ao Mestre com Carinho

Quem não se lembra de seu primeiro professor?
Do professor que mais gostou?
E do que não gostou?
Que marcas nos deixaram?
Porque ainda nos lembramos?
Qual a importância destas figuras em nossas vidas?E você, porque decidiu ser professor?
Que desejos estavam subjacentes a esta escolha?
Agora, no exercício da docência, quais sonhos têm conseguido concretizar?
E as frustrações... Quantas e quais têm se acumulado?
No balanço de realizações e frustrações, como se sente?

I. O que as escolas pedem e o que a sociedade espera

       - O professor além da competência em sua área deve ter bons conhecimentos gerais, saber motivar, avaliar, conseguir bons resultados e manter a disciplina. Deve perceber seus alunos, de forma a identificar possíveis problemas de saúde física e/ou emocional e dar o correto encaminhamento. Auxiliar no planejamento tanto curricular quanto de atividades extra curriculares. Ser hábil em seus relacionamentos não somente com os alunos, mas com a administração e principalmente com os pais. Auto desenvolver -se.A escola atribui-lhe um número de alunos, na maioria das vezes muito acima do possível de ser acompanhado, com variações tanto de capacidade intelectual quanto emocional. Do ponto de vista didático, oferece o giz, o quadro e algum material (livros) de referência.Os pais, em uma sociedade ainda adaptando-se à rápida mudança do papel feminino (de mãe e dona de casa a mãe e profissional), com alta exigência de consumo, e com salários desvalorizados, ausentam-se cada vez mais do lar. O carinho e a educação ficam relegados às poucas horas que restam ao chegarem em casa exaustos após dura e exigente jornada de trabalho. Esperam que a escola e cursos extra curriculares supram a lacuna. Valores que anteriormente eram passados pelos pais são delegados cada vez mais à escola e aos professores. 

II. O arsenal do professor

       - Para responder a estas expectativas e necessidades, como é preparado o professor?Exige-se atualmente do professor o Curso de Pedagogia ou o Curso Universitário equivalente à matéria que irá ministrar, quando se fala do professor níveis I e II e pós-graduação para o nível III.Será que podemos considerar que esta formação garante o desenvolvimento de um mestre?O ensino é nestes casos, freqüentemente, tão massificado e pouco eficiente quanto nos demais níveis. O conteúdo é desenvolvido, muitas vezes, através de uma metodologia que enfatiza o conhecimento teórico, sem oportunidades de se testar o novo, de se redefinir ou reavaliar velhas idéias e valores. Raras são as escolas em que os alunos podem relatar suas experiências pessoais, expressar suas idéias. O que o aluno pensa e principalmente, o que sente é pouco valorizado. A afetividade esta geralmente dissociada da cognição.O futuro professor é, desta forma preparado para ser um "conhecedor" de determinado assunto, e desta forma apto para repassa-lo a outros "aprendizes". A relação interpessoal, inerente e fundamental em seu trabalho é desprezada.Leva ainda em sua bagagem, a metodologia que aprendeu através de seus modelos, e que passará a repetir.

III. O conceito de Papel, sua aprendizagem e desenvolvimento

       - O papel de professor é um dos muitos papéis sociais que podem ser assumidos e desenvolvidos pelos indivíduos durante a vida.Os indivíduos em sociedade assumem funções ou papeis, como as de médico, patrão, líder, amigo, etc., que são observáveis e pressupõe uma dinâmica inter - relacional, podendo, portanto definir-se papel como "a forma de funcionamento que o indivíduo assume no momento específico em que reage a uma situação específica, na qual outras pessoas ou objetos estão envolvidos"(1) . Jacob L. Moreno, criador do Psicodrama, acrescenta ainda que os papéis compõem se de um denominador coletivo e seu diferencial individual. Com esta observação, mostra que existe uma pauta social para os papeis dentro de uma determinada sociedade, ou seja, o que aquela sociedade entende e espera daquele papel. No caso do papel de professor, podemos dizer atualmente, que o denominador coletivo é o que definimos no item I deste trabalho. Esta pauta social vai sendo incorporada pelos indivíduos através das inter - relações que vão se estabelecendo durante a vida. Começa-se a desenvolver a pauta social de professor a partir do momento em que se entra em seu contra-papel: aluno.A aprendizagem do papel de professor começa, portanto quando o individuo ainda é criança, desempenhando o papel de aluno.O individuo já adulto, nos bancos de uma universidade está entrando em contato de forma racional com o conteúdo que deverá futuramente ministrar e aprendendo, também, cognitivamente, métodos de trabalho, mas, muito pouco ainda está sendo feito para o desenvolvimento de seu futuro papel profissional, que já vem sendo formado há muito tempo.Assumir uma classe após a formatura (com este tipo de formação), significa entrar em classe com um papel empobrecido, limitado ao que é prescrito socialmente, em que não há espaço para a criatividade, a espontaneidade, preso a modelos nem sempre adequados.O desenvolvimento de um papel, segundo J. L. Moreno, passa por três etapas: o role taking, o role playing e o role creating. O role taking é a fase de "tomada do papel ou adoção do papel, que consiste em simplesmente imita-lo a partir dos modelos disponíveis"(2) . O role playing é a etapa do jogo do papel, onde pode se explorar de forma simbólica as várias possibilidades de atuação, e o role creating é a fase em que o papel está mais desenvolvido, em que pode ser desempenhado de forma espontânea e criativa. É o momento em que entra o diferencial individual, em que a partir da pauta pré-estabelecida o indivíduo faz sua revisão, sua crítica e inicia o processo criativo que o diferenciará dos demais.Atualmente, a formação do professor baseia-se somente no ensino - aprendizagem de aspectos cognitivos. Do ponto de vista comportamental, ele assume o papel em sua primeira etapa de desenvolvimento, repetindo os modelos anteriormente introjetados. Não tem a oportunidade de passar por um processo de role playing que permite tanto a entrada em contato consigo mesmo, com suas percepções e sentimentos quanto com o aluno, seus valores e necessidades, para que possa liberar sua espontaneidade reavaliando suas posturas, pré-conceitos, criando um novo papel, mais adequado a si próprio, aos seus alunos e a realidade.

IV. O professor merece e precisa ser cuidado

       - O professor desde sempre teve um papel muito importante na vida das pessoas, não somente por ser aquele que apresenta o mundo do conhecimento, com toda a maravilha da.Descoberta, mas por ser um vínculo próximo, forte, que ensina muito mais do que ambos, mestre e aprendiz, têm consciência. É com o professor que a criança passa boa parte das horas de sua vida que se inicia. Ele fará parte de seu referencial de mundo, de gente e de si próprio.Boa parte da auto estima da criança é desenvolvida no papel de aluno e de colega. É na escola, em suas relações que desenvolve parte de seus valores. Por isso nos lembramos após tanto anos de nossos mestres. Quantas lembranças boas, gostosas... Quantos momentos difíceis, sofridos, constrangedores...Quanta responsabilidade... Este professor precisa e merece ser mais cuidado, senão por ele próprio, que acaba se desgastando, muitas vezes perdendo de vista os ideais que o levaram a escolher tão difícil profissão, mas também pelas crianças, jovens, adultos que ainda nos bancos escolares serão o futuro da humanidade.Precisa-se desenvolver a consciência de que a preparação intelectual é apenas parte do desenvolvimento do professor, e de que esta, pouco será aproveitada se seus aspectos comportamentais (relacionais) não forem desenvolvidos.O Psicodrama apresenta todo um referencial teórico/prático que fundamenta o trabalho de desenvolvimento de papéis e que pode ser utilizado para o crescimento deste profissional que tem um papel fundamental em nossa sociedade.

V. O Psicodrama e o desenvolvimento do papel de professor

       - O Projeto Socionomico desenvolvido por J. L. Moreno, mais conhecido como Psicodrama, oferece diversos recursos para o educador e é extremamente coerente com o que há de mais moderno no pensamento pedagógico.O dinamismo de suas técnicas, a clareza de seus conceitos teóricos e a profunda humanidade de sua fundamentação filosófica, viabilizam um vasto campo de aplicação e reflexão para os profissionais de ensino. Oferece desde uma metodologia de trabalho que agrega o sentir, o agir e o pensar, tornando o aprendizado mais integrado e conseqüentemente eficiente, como recursos para desenvolver nos aprendizes uma maior consciência de si mesmos e dos outros, propiciando um aprendizado inter relacional mais saudável.O professor com uma formação psicodramática certamente encontra-se mais apto a enfrentar sua difícil tarefa em sala de aula.Neste momento, no entanto, o foco está em seu desenvolvimento.Um dos recursos psicodramáticos visa o desenvolvimento de papéis através de sua revisão e liberação da espontaneidade. Espontaneidade Para J. L. Moreno, é definida como "...a resposta adequada a uma situação nova ou a nova resposta a uma antiga situação"(3). "...ser espontâneo significa estar presente às situações, configuradas pelas relações afetivas e sociais, procurando transformar seus aspectos insatisfatórios"(4). "Espontaneidade não é fazer qualquer coisa em qualquer momento, em qualquer lugar, de qualquer maneira e com qualquer pessoa, o que seria uma espontaneidade patológica. Em psicodrama, ser espontâneo é fazer o oportuno no momento necessário. É a resposta boa a uma situação geralmente nova, e por isto mesmo difícil. Deve ser uma resposta pessoal, integrada, e não uma repetição ou uma citação inerte, separada de sua origem e de seu contexto"(5).Em oposição, Moreno fala em Conserva Cultural, que seria toda a cristalização de um processo de criação. Exemplificando: O professor não está conseguindo manter a disciplina em sua sala após a aula de Educação Física. Os alunos chegam agitados, suados, irrequietos. O professor pede silencio. Seu tom de voz aumenta na medida em que aumenta sua irritação. A balbúrdia diminui um pouco, mas é ainda insuficiente para que se inicie a lição. O professor perde o controle e "manda" três alunos "para a diretoria". Na semana seguinte o episódio se repete.Esta resposta do professor está sendo adequada? Certamente não. Sua atuação não está sendo eficaz no sentido de manter a disciplina, está perdendo o controle da classe, esta lhe causando evidente mal estar, está deteriorando sua relação com os alunos, e finalmente está evidenciando sua impotência, no momento em que transfere a resolução do problema para outra pessoa.Neste momento, este professor, está lançando mão de uma conserva cultural. Está repetindo padrões de conduta aprendidos. Não está conseguindo entrar em contato com o outro, inverter papel com seus alunos, no sentido de compreender suas sensações. Não está conseguindo entrar em contato consigo mesmo para perceber o que a atitude destes alunos está lhe provocando e finalmente não está percebendo o jogo de complementariedade doentia que esta se estabelecendo.Qual seria a resposta espontânea? Não existe resposta pronta. Se existisse, deixaria de ser espontânea, seria uma nova conserva cultural, que talvez se adequasse a algumas situações, mas certamente não serviria para outras. A resposta espontânea para esta situação, somente este professor poderia encontrar, pois teria que ser uma resposta que satisfizesse suas necessidades, de sua classe e que fosse eficiente.Pois bem, um treinamento psicodramático, visa através do "como se", oferecer a este professor a possibilidade de fazer e re fazer esta cena quantas vezes for necessário, com a orientação de um profissional treinado, que utiliza recursos técnicos adequados, dentro de um clima protegido, até que consiga encontrar a "sua" melhor resposta. Neste processo, o professor seria incentivado a perceber tanto os sentimentos de seus alunos, quanto os seus próprios, pesquisando, inclusive possíveis causas para o bloqueio de sua espontaneidade, que o tem levado ao uso de conservas culturais ineficientes.Poderia então questionar se, que, desta forma, o professor teria que passar toda a sua vida em treinamento. A proposta psicodramática não é esta. Moreno coloca a este respeito, que "A espontaneidade é uma disposição do sujeito para responder como requerido. É uma condição - um condicionamento - do sujeito; uma preparação do sujeito para a livre ação. Assim, a liberdade de um sujeito não pode ser alcançada por um ato volitivo. Aumenta gradualmente em resultado do treino de espontaneidade. Por conseguinte, parece certo que, através do treino da espontaneidade, um sujeito torna-se relativamente mais livre das conservas - passadas ou futuras - do que antes dele,o que demonstra tanto o valor biológico da espontaneidade como o seu valor social"(6).Este recurso de treinamento é que permite ao professor "jogar com o seu papel", role playing, passando do role taking, para o desempenho de um papel mais rico e criativo: role creating.Este trabalho deveria ser, preferencialmente dirigido aos mestres em formação, como parte de seu currículo, sendo, no entanto, perfeitamente aplicável e igualmente importante, para aqueles que já vem se dedicando ao ensino a algum tempo, mas buscam seu aprimoramento.Quem não se lembra de seu primeiro professor?
Do professor que mais gostou?
E do que não gostou?
Que marcas nos deixaram?
Porque ainda nos lembramos?
Qual a importância destas figuras em nossas vidas?

       - Cuidemos de nossos professores, por eles e por nossas crianças e jovens, por nosso futuro!"Todos os criadores estão a sós até que seu amor pela criação forma um mundo ao seu redor."J. L. Moreno

Rosa Lidia Pacheco F. Pontes
Setembro/2002

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1 Camila Salles Gonçalves e colaboradores, Lições de Psicodrama - Introdução ao Pensamento de J. L. Moreno. São Paulo : Editora Agora, 1988, p. 47
2 Camilla Sallles Gonçalves e colaboradores, , Lições de Psicodrama - Introdução ao Pensamento de J. L. Moreno. São Paulo : Editora Agora, 1988, p. 73
3 Eugenio Garrido Martín, J. L. Moreno: Psicologia do encontro. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1984, p.130.
4 Camilla Sallles Gonçalves e colaboradores, Lições de Psicodrama - Introdução ao Pensamento de J. L. Moreno. São Paulo : Editora Agora, 1988, p. 47
5 Eugenio Garrido Martín, J. L. Moreno: Psicologia do encontro. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1984, p.130
6 Jacob Levy Moreno, Psicodrama. São Paulo: Editora Cultrix, 1975, p. 162.
7 Jacob Levy Moreno, As Palavras do Pai. Campinas: Editorial Psy, 1992, p. 114.____________________________

Referências Bibliográficas

BUSTOS, Dalmiro Manoel. El Psicodrama - Aplicações de la técnicaPsicodramática, Buenos Aires : Editorial Plus Ultra, 1974.
GONÇALVES, Camila Sales; WOLF, José Roberto; ALMEIDA, Wilson Castello. Lições de Psicodrama - Introdução ao Pensamento de J.L. Moreno, São Paulo: Editora Agora, 1988.
LEMBO, John. Por que falham os professores, São Paulo : EPU, 1975.
MARTÍN, Eugenio Garrido. J. L. Moreno: Psicologia do Encontro, São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1984. 
MORENO, Jacob Levy. Psicodrama, São Paulo : Editora Cultrix, 1975.
MORENO, Jacob Levy. As Palavras do Pai, Campinas : Editorial Psy ,1992.
WECHSLER, Mariângela Pinto da Fonseca. "Educação para o século XXI: métodos de ação" in Linhas Críticas - Revista Semestral da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, Brasília, v. 4, ns. 7-8, p. 23-30, Jul.1998 a Jun. 1999.