Uma Proposta de Atuação I. Introdução- Uma das mudanças mais importantes no processo de evolução das sociedades humanas foi a revolução industrial. Foi um dos maiores impactos que a humanidade sofreu, provocando profundas alterações econômicas, sociais, políticas, e consequentemente guerras, fortuna e ruína de pessoas, empresas e países. - Ainda hoje, estamos elaborando os seus intensos efeitos em nossas vidas do ponto de vista econômico, filosófico, educacional e ético. - A genialidade da passagem do modo de produção artesanal para o industrial é propiciar a diminuição de custos com aumento de qualidade, ampliando drasticamente o número de indivíduos que podem usufruir de um determinado produto com vantagens evidentes para quem produz e para quem consome. Gradativamente o homem foi sendo seduzido e conquistado: o prato criado pelo grande "chef de cuisine" vira "receita" reproduzida milhões de vezes, uma boa orientação médica vira "fórmula", um roteiro inteligente de férias na Europa, se transforma em "pacote". Milhões de pessoas passam a ter acesso a milhares de serviços e produtos numa boa relação custo - benefício. A ordem é racionalizar, padronizar, reproduzir, gastar menos, lucrar mais. - É natural que estes princípios, métodos e filosofia se incorporassem à visão de mundo do homem moderno em geral e, aqui em particular, dos profissionais de Recursos Humanos. - Na medida em que o trabalho em equipes passou a ser valorizado pelas empresas e se começou a atentar para as dificuldades nele contidas, foi se acumulando no mercado de Recursos Humanos, uma vasta quantidade de propostas e atividades sobre estas questões. Do ponto de vista industrial nada mais lógico que montar uma linha de produção onde grupos com as mesmas queixas sejam colocados e passem por "fórmulas" e "pacotes" cuidadosamente preparados de antemão. Tudo muito rápido e objetivo, poupando-se tempo e dinheiro, o ideal de eficiência industrial. - São montados programas que propiciam aos integrantes de um grupo viverem intensas emoções e/ou receberem inúmeras informações interessantes sobre comunicação, psicologia e/ou administração. No entanto, muitas vezes, o que se tem observado, é que, apesar de uma boa avaliação do trabalho desenvolvido, e do grupo voltar mais animado, o efeito tem tido pouca duração e repercussão. Com o passar do tempo, começa se perceber que as dificuldades continuam as mesmas. II. A Realidade Humana- Um dos primeiros aspectos a ser considerado, é que mudanças comportamentais duradouras das pessoas são resultado de um processo mais profundo do indivíduo como um todo, que não se resume à mecânica simples de: perceber - pensar - agir, mas sim, de um processo que inclue sentimentos e emoções: perceber - sentir - pensar - agir. Em todas as dificuldades de relacionamento interpessoal existem sentimentos pouco conscientes que não são nem simples, nem fáceis, nem rápidos de serem trabalhados. - Outro aspecto a ser lembrado, é que as relações humanas englobam fenômenos subjetivos de difícil observação e trabalho como distorções perceptuais, emoções conflitivas, e idéias preconcebidas. A identificação e localização mais precisa destes aspectos é indispensável para uma compreensão mais clara e profunda do que realmente está acontecendo com os integrantes de uma equipe. Precisa - se ser realista e humilde, por maior que seja a competência de um consultor, é praticamente um milagre alguém saber estes aspectos "à priori" ou a partir da opinião de uma única pessoa em um contato de poucos minutos. - Deve - se ainda ponderar, que cada homem é único, resultado de uma extraordinária combinação genético - cultural exclusiva. Somente o fato de os grupo serem compostos por diferentes pessoas já faria sua diferenciação. Além disso, estes também diferem em relação ao número de integrantes, objetivos e circunstâncias que envolveram sua criação: membros que entraram e saíram, adversidades que enfrentou, toda uma história que aquelas pessoas viveram e construíram juntas em um momento de suas vidas e da vida da empresa. Novamente, deve-se apelar para o senso de realidade e consciência das limitações. Por maior que seja o conhecimento teórico e a experiência prática que um profissional tenha, se ele não tiver oportunidade de conhecer mais intimamente aquele grupo, aquelas pessoas, dificilmente saberá de antemão, quais são, como são e porque são aquelas dificuldades. - Finalmente, tem que se considerar, que indivíduos e grupos vivem um processo de evolução no transcorrer de suas existências. A mesma atividade pode ser excelente para um grupo em determinado estágio de evolução, mas incompreensível em estágio anterior, ou ainda ultrapassada e desnecessária para um grupo em estágio posterior. - Desta forma, levando-se em consideração as características da matéria prima de seu trabalho, o profissional de Recursos Humanos, ainda necessita executar uma parte de seu trabalho de forma mais artesanal. Fica inviável produzir-se moldes, formas em que se encaixem pessoas ou grupos, com tal grau de diferenciação. Tem que se entender que nem sempre é possível aplicar-se aos grupos e suas dificuldades relacionais, os mesmos raciocínios utilizados quando se produz parafusos. III. Metodologia da Acto - Desenvolvimento Profissional e Pessoal- A experiência de mais de vinte anos estudando, pesquisando técnicas e administrando dificuldades grupais, levou a nós, profissionais da Acto - Desenvolvimento Profissional e Pessoal, a criar um sistema próprio, que se propõe à realização de trabalhos personalizados, buscando, em um primeiro momento, identificar quais as possíveis causas para as dificuldades apontadas, para somente, a partir dos dados cuidadosamente coletados, elaborar uma intervenção sob medida para cada situação. Trata-se de um trabalho artesanal, que pretende aliar a metodologia científica de trabalho, à sensibilidade, inteligência e recursos técnicos da arte. Priorizamos a qualidade em relação à quantidade e não o inverso, por nossa matéria prima ser especial. Não lidamos com tintas, metais ou minerais. Lidamos com "gente". Os fatos nos levaram a não acreditar que mudanças comportamentais duradouras de pessoas e grupos possam ser obtidas a partir de relações impessoais e anônimas através de processos autoritários e repetitivos de imposição de tarefas. - Por estas razões, dividimos nosso trabalho em três etapas. - A primeira, é realizada através de contatos com a empresa, utilizando-se entrevistas com o profissional de RH e o responsável pela equipe a ser desenvolvida. O objetivo é a coleta inicial de informações que possam nos fornecer um mapeamento geral da situação, e que nos permitam pensar no planejamento de uma estratégia de pesquisa adequada à empresa e ao grupo, apresentando uma proposta de diagnóstico grupal com tempo e custos. - A estratégia por nós utilizada nesta etapa, é a realização de entrevistas individuais que objetivam a formação inicial do vínculo consultor - cliente, o aquecimento de ambos para o trabalho que se inicia, o conhecimento do consultor das queixas e história consciente do grupo sob diferentes olhares, e um contato inicial com os aspectos inconscientes do grupo que, somados à história formal, poderão levar ao levantamento de hipóteses que serão utilizadas na elaboração da seqüência do trabalho: - As entrevistas individuais fornecem as pistas para o planejamento da entrevista grupal. Hipóteses mais consistentes vão sendo formadas, levando a um planejamento sob medida de atividades para a entrevista grupal que poderá ratificar ou retificar estas hipóteses. - A entrevista grupal é o passo seguinte, que possibilita aos consultores participarem de atividades junto com o grupo. É senti-lo funcionando, mergulhar em sua dinâmica, coletar informações sobre ele ao vivo. É observar, interagir, viver o grupo. Nesta etapa, o consultor organiza sua intervenção seguindo uma metodologia que trabalha com os conteúdos do livre para o lógico e de dentro para fora, com uma postura de horizontalidade. As atividades propostas são criteriosamente escolhidas, no sentido de fornecer os dados mais completos sobre as dificuldades de funcionamento daquela equipe. É a oportunidade privilegiada de se observar aquele grupo em funcionamento: uma excelente amostra de comportamento. - Somente de posse destes dados mais completos e confiáveis, partimos para o momento de discussão, análise e organização das informações coligidas e construção de um esboço um pouco mais claro e completo da situação, ou seja, o que está acontecendo e quais são suas prováveis causas. O esboço é apresentado e discutido com o grupo. É realmente isto que está acontecendo? É realizado um trabalho conjunto consultores- grupo, usando o conhecimento que cada um tem de si mesmo e da história do grupo, além da sua capacidade de observação, sensibilidade e inteligência. Esta co - construção, além de tornar o trabalho mais gratificante para o grupo, fornece dados mais verdadeiros e portanto, tende a tornar-se mais eficiente. O resultado é uma fotografia das relações interpessoais, o desnudamento da trama coletiva, uma obra de ciência e arte. - Apesar de dividirmos, para efeito de sistematização, o trabalho em diagnóstico e intervenção, esclarecemos que, na realidade, a forma como a etapa diagnostica é desenvolvida, já leva, freqüentemente a algumas mudanças na dinâmica de interação grupal. Já se constitui no início de uma intervenção. Pode-se dizer que é um aquecimento para o trabalho posterior. IV. Conclusão- Como pode ser constatado, a carga horária de trabalho proposta por nós, da Acto, pode ser maior que a habitual, mas acreditamos que pode levar a uma melhoria mais permanente do clima emocional do grupo, que comprovadamente leva a maior produtividade individual e grupal e consequentemente a maior lucratividade. - Às vezes "o barato sai caro". A procura de soluções para as dificuldades de uma equipe, dentro de um esquema mais "industrial", formatando pessoas e grupos em "pacotes", pode levar a problemas recorrentes, que demandam várias intervenções, acumulando, desta forma, prejuízos para os indivíduos, o grupo e a empresa. - Nesta medida, o investimento feito num diagnóstico mais cuidadoso dos problemas e numa intervenção mais prolongada, pode ser várias vezes recuperado pelos lucros a médio e longo prazo. - Gostaríamos ainda de salientar que nossa proposta é de um trabalho conjunto. Deve haver uma relação de confiança e parceria entre consultores e participantes: nossa tecnologia e arte pouco resultado produzem se nossa matéria prima não quiser ou puder ser trabalhada. É fundamental que os integrantes do grupo e a organização colaborem tanto no sentido de esclarecer sinceramente o que pensam e sentem, como de se engajar honestamente em um processo de auto - conhecimento e auto - mudança, que propicie a melhoria nas relações interpessoais. Antonio Sampaio Ferreira Pontes |