
A Ação Psicodramática em Empresas I. Nossa realidade social - Talvez, nunca tenhamos vivido tão claramente nossos conflitos entre os aspectos emocionais e racionais , quanto nos dias de hoje. - O desenvolvimento tecnológico que o aspecto racional do homem tem alcançado, já há muito tem estado distante de sua - A geração dos pais de muitos dos aqui presentes(caso do meu, atualmente com 81 anos) se deslocava em sua infância, a cavalo, - Estudante de Psicologia, para os cálculos de estatística, retirava na biblioteca da PUC, somadoras Facit de manivela, hoje redijo - Os papéis masculino e feminino sofreram profundas alterações nos últimos 30 anos com o desenvolvimento de métodos - O jovem de 18 anos, hoje, não conheceu o mundo sem AIDS, nunca comprou um LP, dificilmente assistiu a uma televisão - O homem pisou na Lua e agora sonda Marte. - Novos hábitos de higiene e saúde, bem como o desenvolvimento da tecnologia científica nestes setores, tem nos assegurado - A Escravidão no Brasil acabou a apenas 100 anos. - Nosso país, como o resto do mundo, está mudando muito e muito rapidamente e nossas cabeças tem realizado esforços sobre - Como se não bastasse, a globalização está aí. Assistimos via satélite o que se passa do outro lado do mundo, ao vivo e à cores. - Nossa economia, e portanto, nossa sobrevivência já não depende somente de nós mesmos. Este ano começamos a sentir mais - Se, por um lado é fascinante, será que nossas cabeças dão conta de processar tantas informações, muitas vezes conflitantes - Nosso racional esforça-se e até consegue na maioria das vezes compreender e elaborar; mas será que no fundo, - Pois bem, fiz esta introdução, falando da gente, como indivíduos, de nossas dificuldades e conflitos, mas, se ampliarmos estas idéias II. A Empresa - A Revolução Industrial, ocorreu há pouco mais de 200 anos, época em que o trabalho não era regulamentado, obrigando os operários a - Atualmente, em um mercado globalizado e competitivo, as empresas tem sido obrigadas a realizar mudanças administrativas radicais e - A moderna administração tem percebido que a competitividade através de preços e da busca da qualidade é a forma de vencer no novo - No que diz respeito à qualificação do ser humano trabalhador, Daniel Goleman em seu livro "Emotional Intelligence"(EUA-1985),
- Com relação ao trabalho em equipe, coloca-se que para haver produtividade as pessoas precisam trabalhar bem, juntas e isto depende de como se relacionam e de sua compatibilidade, considerando o indivíduo e as diferenças entre ele e os outros, as discordâncias e os conflitos que naturalmente surgem em um grupo, administrando-se desde o processo da formação ao desenvolvimento da equipe.Do ponto de vista racional, o caminho parece ter sido encontrado e como veremos adiante, do meu ponto de vista, extremamente coerente com nosso entendimento psicodramático. No entanto, na maioria das empresas, na prática, o que efetivamente temos visto ocorrer, ou seja o que as pessoas tem conseguido realizar, é bastante diferente:O processo seletivo continua baseando-se em testes de inteligência e personalidade e quando ousados, em "dinâmicas de grupo", que embora muito animadas, muitas vezes carecem de fundamentação teórica que justifique sua prática em função daquela empresa, daquela vaga e principalmente do grupo para o qual aquele indivíduo deverá pertencer. A metodologia utilizada é vertical, sendo que, quem decide pela aprovação ou não do candidato, na maioria das vezes, não faz parte do grupo com quem este deverá trabalhar.As equipes, quando existem, não passam de aglomerados de pessoas, que foram sendo agrupadas pelos mais diferentes critérios, menos o sociométrico. A maioria dos trabalhos de treinamento e desenvolvimento oferecidos, são a nível operacional e quando ditos "comportamentais", tem ainda pecado em três aspectos fundamentais: O primeiro diz respeito à metodologia utilizada - as idéias são exaustivamente repetidas, cada vez com maior tecnologia, através de palestras, recursos audio visuais, filmes, mas quase sempre atuando à nível do cognitivo, deixando os aspectos motores e emocionais para trás e ignorando os ensinamentos da moderna pedagogia. Costumam ser verticais, desprezando a sabedoria e condições do aprendiz, comprovadamente com pequenos resultados.O segundo, é que quando se pretende inovar, introduzem-se "Dinâmicas de Grupo", muitas vezes deslocadas do tema em questão, apenas para "quebrar o gelo. motivar após o almoço, ou ainda, contratando programas mirabolantes de "sobrevivência na selva", ou algo no gênero, para vencer medos e desafios, em um total desrespeito aos sentimentos dos indivíduos e ignorância à teoria de papéis: se eu conseguir pular de um patamar de 8m de altura, confiando nas pessoas me segurarem ao final da queda, significa que não terei medo em assumir um posicionamento perante à diretoria e que conseguirei confiar em meus funcionários.E o terceiro, se refere à população a que se destinam. A alta cúpula, informada, atualizada, percebe que faz se necessário mudanças: há que se ter equipes fortes, coesas, estruturadas, trabalhando em clima de respeito, onde erros sejam vistos como tentativas de acertos, onde os chefes desenvolvam-se em líderes trabalhando em parcerias.... Enfim, tudo o que há de mais novo e moderno em termos administrativos, aprendidos em livros, cursos, seminários, palestras e pós graduações. Deve-se solicitar a RH que providencie treinamentos para todos os escalões, menos evidentemente aos primeiros, aos requisitantes, pois estes já sabem muito bem o que "deve" ser feito.Em um número recente da Revista Fortune, foi publicado um artigo, sobre o executivo americano, que citava que 95% deles, conheciam perfeitamente o discurso de tudo que deveria ser feito para obter-se transformações, mas, que destes, somente 5% conseguiam agir de acordo com o que tinha que ser feito. Constatava uma defasagem enorme entre discurso e ação.Evidentemente, não podemos generalizar estas colocações, encontramos um pequeno grupo de empresas que são realmente de vanguarda, que ousam sair verdadeiramente de suas conservas, não somente a nível de discurso, como a nível de ação, mas infelizmente, temos que constatar que a grande maioria encontra-se ainda no início do século e que outras poucas, parecem viver em pleno século XVIII, no início da "Revolução Industrial".Gaudêncio em uma entrevista à Revista T&D, coloca: "Todos começam muito entusiasmados com a reengenharia. Depois, percebem que seu lugar está em perigo. E aí começa a dar medo, e o entusiasmo passa. E como o indivíduo não acessa a emoção que está sentindo, ele muda só a sua argumentação. Raciocinar é você saber o que está sentindo, e como isto informa o seu comportamento. O indivíduo, não raciocina, ele racionaliza. Ele não sabe o que está sentindo e inventa uma explicação para o fato de estar agindo daquele jeito. Basicamente, todas essas modernidades, que são absolutamente essenciais, são mancas, porque falta um pedaço: mudar a cabeça".Com que estes executivos se deparam que é tão difícil mudar? Porque é tão difícil mudar a cabeça?A meu ver, tudo está acontecendo muito rápido. Esbarram em suas conservas culturais, da mesma forma que as mães, ao ouvirem suas filhas reivindicando viajar para a praia com o namorado no fim de semana. Tem medo de não encontrarem sua "espontaneidade", que lhes estaria assegurando a possibilidade de criar novos padrões de conduta, que lhes garantisse uma verdadeira liderança. Estão, como a mãe, presos às suas matrizes sociais, a modelos de chefia que lhes dizem lá dentro: "Manda quem tem razão, obedece quem tem juízo". Estão prisioneiros de normas interiorizadas, que dizem que o chefe tem que ter seus funcionários na palma da mão "para não perder o controle, eles abusarem e virar bagunça". Aprenderam no "Aurélio" e foram confirmados pelas atitudes de seus pais e chefes que subordinar, significa estabelecer dependência, dominar, subjugar, sujeitar, submeter.Provém de uma cultura individualista, que não sabe ouvir, e quando fala é para impor suas idéias. Provavelmente, seus modelos de relação foram pautados nestes valores e todos sabemos que não é nada fácil desacorrentar-se destas idéias vivenciadas desde a tenra idade, e principalmente em um tempo curto e não necessariamente porque amadureceu-se e sentiu-se necessidade, mas porque a lei de mercado assim está exigindo.Isto tudo, sem falarmos nas dificuldades pessoais, individuais, provenientes da matriz de identidade, tais como, o não reconhecimento adequado de si mesmo, problemas no reconhecimento do outro, com a conseqüente dificuldade em inverter papéis, em suma, a predominância de aspectos projetivos e/ou transferenciais, em oposição à potencialidade télica. Um baixo QE? - Podemos, portanto, perceber, claramente, a distância de nossas idéias (cognitivo), com nossas ações (onde o emocional se manifesta), em todos os setores de nossas vidas, quer seja no plano individual, nos pequenos grupos ou em agrupamentos maiores, institucionais, como as empresas.III. O Psicodrama em Empresas - Dentro do discurso racional da moderna administração, talvez não encontremos filosofia, teoria e metodologia, mais próxima que a psicodramática. Em muitos momentos, ao ler idéias e posicionamentos desta nova visão empresarial, sinto um misto de orgulho e raiva. Orgulho em perceber que aquelas idéias controvertidas de Moreno ha 50, 60 anos atrás, estão sendo atualmente colocadas como a forma de garantir a sobrevivência das empresas, aliás como ele próprio preconizava, e raiva por nunca encontrar uma citação do nome de Moreno, nem sequer nas referências bibliográficas.Moreno e suas idéias parecem realmente preencher as expectativas destes homens de negócio, que estão tendo que reformular radicalmente sua forma de pensar, frente as mudanças que o desenvolvimento tecnológico e o processo de globalização tem exigido. O que infelizmente eles ainda não tem clareza, é que esta mudança tem um preço. Não há como colher seus frutos se não houver a mesma mudança radical em seu agir, que passa necessariamente por seu sentir e pela reformulação de uma série de valores.Tentarei aqui, brevemente expor como vejo o Psicodrama com seu corpo teórico e técnico entrando na empresa, de forma a garantir sua sobrevivência e sua saúde.Um dos eixos centrais do pensamento Moreniano, está na Sociometria: a possibilidade de escolha. "O homem deve eleger e estabelecer sua vida junto a quem o elege." Em seu trabalhos, Moreno comprova que a possibilidade de ser escolhido e se estar escolhendo os grupos a que se pertence, não somente torna os indivíduos mais felizes, mas aumenta sua produtividade em quantidade e qualidade, com conseqüente economia de tempo e recursos materiais.Desta forma, o uso dos recursos Psicodramáticos e Sociométricos podem tornar-se fundamentais para aqueles que realizam trabalhos em Seleção, não devendo ser vistos, apenas como um conjunto de técnicas modernas e motivadoras, por guardarem atrás de si, todo um embasamento teórico, que garante segurança ao entrevistador. Podem proporcionar um maior índice de acerto e satisfação a ambos, na medida em que o relacionamento é horizontal, sendo as escolhas mútuas entre a empresa e o candidato.Além do entendimento da importância da realização de escolhas, o profissional de seleção, deve estar apto para fazer uma re-leitura de suas necessidades dentro do referencial psicodramático, ou seja, para que se sinta realmente seguro, deve ter claro os principais conceitos teóricos e associa-los às requisições do contratante. Somente após definir o que pretende avaliar é que poderá escolher os recursos a serem utilizados. A associação entre postura, entendimento teórico e utilização de técnicas é que definirá, "a ação Psicodramática" e que tornará o selecionador realmente "criativo" ( em oposição ao "criador desarmado").O mesmo raciocínio aplica-se quando se pensa em um processo de remoção interna, quer seja por necessidade de serviço, quer por problemas de adaptação ou de baixa produtividade. Nestas situações, temos basicamente um "novo processo seletivo", na medida em que o funcionário deverá executar outra função em outro grupo. Nos casos de problemas de adaptação ou desempenho insatisfatório, pode-se pensar em falhas seletivas, justamente, talvez, por não ter se respeitado a sociometria do candidato e do grupo.Se o profissional de RH, muitas vezes encontra dificuldades em selecionar um candidato para compor um grupo e a Sociometria pode garantir-lhe bons resultados, muito mais, no caso em que precisa Formar uma Equipe inteira. - As idéias de QE desenvolvidas por Salovery e Mayer já haviam sido pontuadas por Moreno. As cinco áreas por eles descritas, vejo que podem ser assim traduzidas:
IV - O que os Psicodramatistas devem desenvolver - Para que possamos efetivamente realizar o Projeto Socionômico Moreniano nas empresas e instituições, percebo que necessitamos um grande trabalho de desenvolvimento profissional e pessoal.Precisamos urgentemente definir uma metodologia de trabalho. Não podemos permitir que a proposta Moreniana seja reduzida a um conjunto de jogos ou "dinâmicas" interessantes e animadas. Antes de mais nada, precisamos ter uma alto QE. Temos que desenvolver profundamente nossa auto e hetero percepção para que possamos inverter papéis com a empresa, seus dirigentes e funcionários, sem nos esquecermos jamais que a proposta psicodramática é inter - relacional. Nosso cliente não será nunca o dono, o dirigente, ou o funcionário. Nosso foco será sempre "a relação".Precisamos estar alertas, para não nos enganarmos com os discursos intelectualizados que nos pedem o desenvolvimento de grupos autônomos, esquemas de parceria desenvolvimento de criatividade..., idéias extremamente sedutoras, com as quais nos identificamos e que nos levam muitas vezes a acreditando no discurso, iniciar ações que os próprios proponentes não podem suportar.Trabalhar nossa ansiedade, para que possamos realizar este projeto maior a longo prazo, levando em conta os medos, as defesas, procurando desenvolver o saudável de início, contentando-nos muitas vezes com o que julgamos pequenas ações, mas que podem representar muito em termos de mudanças de valores.Enfim, desenvolver ao máximo nossa espontaneidade, para que possamos realizar aquele jogo de olhar para a empresa, seus dirigentes e funcionários como realmente são e não como se nos apresentam, nos afastarmos, olharmos para nós mesmos, com nossos sonhos, desejos medos e frustrações, e somente após separarmos os dois, procurarmos a resposta mais adequada para a situação, levando em consideração a realidade da empresa e nossos ideais e metas. Afinal, neste mundo de rápidas transformações e conflitos, Rosa Lidia Pacheco F. Pontes |