AMOR E SOCIOMETRIA

 

       As relações afetivo-sexuais ocupam um papel central nas nossas existências. Para a maioria de nós, a maior parte da felicidade ou infelicidade que vivemos resulta dos nossos encontros e desencontros amorosos.

       Por que sofremos tanto? Por que os relacionamentos não dão certo?

       O comportamento de apego é uma característica clara e evidente nas formas mais evoluídas de vida. Apesar de variações de intensidade e duração ele é presente em todas espécies de mamíferos e aves.

       No ser humano e em outros animais como os periquitos, cachorros e elefantes, por exemplo, ele costuma ultrapassar os limites da infância e se apresentar por toda a vida. Em outras palavras, nós estamos programados, geneticamente, a estabelecer laços afetivos por toda nossa existência com outros seres humanos e, eventualmente, outros seres vivos, objetos, lugares, etc. Também faz parte desta programação os sentimentos de felicidade e paz nos momentos de proximidade com pessoas amadas, e os sentimentos de raiva, dor, medo, angustia e depressão quando somos rejeitados, separados ou abandonados pela pessoa amada.

       Nascemos com um enorme “potencial amoroso”, uma profunda necessidade de amar e sermos amados. O X da questão, o ponto crítico das nossas vidas vai ser o “aprendizado amoroso” que vamos fazer através das primeiras relações afetivas que estabelecemos na infância. Os primeiros vínculos afetivos são os nossos canais privilegiados de comunicação com o mundo. É através deles que aprendemos de forma mais completa ou incompleta, mais real ou distorcida, quem somos nós mesmos, quem são os outros e o que é uma relação afetiva.

       Infelizmente, é praticamente impossível vivermos os vários anos do nascimento até a idade adulta sem passarmos por separações prolongadas, relações angustiosamente conflitivas e perdas prematuras traumáticas.

       Quando o sofrimento causado por essas experiências ultrapassa os limites que o frágil e sensível psiquismo infantil pode suportar, mecanismos de proteção são automaticamente acionados para anestesia-los. Porém, este alívio momentâneo tem o alto preço de deixar armazenadas dores não expressas, dificultando e/ou impedindo a “cicatrização das feridas psicológicas” que sofremos. Vamos “interiorizando” conflitos que nos fragmentam em emoções conscientes e inconscientes, em contradições entre o que nós sentimos, pensamos e fazemos.

       Agora podemos voltar às nossas perguntas iniciais: Por que sofremos tanto? Por que os relacionamentos não dão certo?

       Sem a pretensão de esgotar o assunto, existem dois conceitos da Sociometria (divisão de proposta teórica de Moreno que estuda o aspecto quantitativo das relações humanas) que podem nos ajudar a entender dois aspectos fundamentais das relações afetivo-sexuais.

       O primeiro são os critérios que usamos para escolher nossos parceiros. Por óbvio que pareça, para encontrar o que buscamos, primeiro precisamos saber o que queremos. O que é importante para nós: Beleza? Inteligência? Sensibilidade? O que é prioritário? O que é secundário? Em linguagem sociométrica, quais são os nossos critérios de escolha sociométrica? Como nós os organizamos?

       O segundo conceito refere-se a essência de toda relação humana saudável: é a reciprocidade, a mutualidade. Temos a liberdade de escolher, mas, para que a relação funcione bem precisamos também ser escolhidos.

       Em termos de Sociometria, quanto mais télica for a relação mais saudável ela será. Neste jogo relacional entram os defeitos e qualidades dos potenciais parceiros e... os nossos. O que eu procuro no outro para escolhê-lo e o que ofereço para ser escolhido.

       Estes são dois pontos de partida de todos relacionamentos e de ciclos existenciais que se retroalimentam, os quais podem ser mais construtivos ou destrutivos dependendo da nossa saúde emocional.

       Quanto mais integrados psicologicamente formos, melhor percebemos nossas verdadeiras necessidades e as reais características dos nossos potenciais companheiros. Esta percepção mais precisa nos permitirá escolher companheiros mais compatíveis e, consequentemente, estabelecermos relações mais duradouras e enriquecedoras. Estas experiências nos fornecerão autoconfiança e maturidade para direcionar cada vez melhor novas escolhas, retroalimentando o ciclo.

       Inversamente, quanto mais profundos e numerosos forem nossos conflitos emocionais não resolvidos, mais incompleta ou equivocada será a percepção que temos dos nossos mais importantes desejos e das qualidades e defeitos dos parceiros. Estas dificuldades perceptuais vão aumentar a probabilidade de efetuarmos más escolhas que resultarão em sofrimento advindos de relacionamentos conflitivos e desgastantes e/ou separações e perdas prematuras. A dor provocada por esses desencontros será multiplicada ao bater nas “feridas psicológicas”, já anteriormente abertas, podendo tornar-se insuportável e novamente obrigando o psiquismo a se defender com mais doses de anestesia, fechando o ciclo destrutivo.

       Tudo isto nos remete à questão do nosso auto conhecimento. Como posso escolher um parceiro adequado se eu tenho uma percepção de mim mesmo e do outro incompleta e/ou distorcida?

       O caminho é ao mesmo tempo extremamente simples e extremamente complexo. Precisamos empreender uma longa jornada pelo interior de nós mesmos, um processo de auto conhecimento e auto mudança que permita cuidar das nossas “feridas psicológicas”, chorando as nossas dores esquecidas e finalmente cicatrizá-las. E assim conseguirmos nos apoderar do extraordinário potencial que a natureza nos deu e desfrutar mais de toda a felicidade que a vida pode nos oferecer.

 

 

 

São Paulo, Maio de 2001
Antonio Sampaio Ferreira Pontes
Psicólogo, Psicodramatista,
Terapeuta de alunos, Professor-Supervisor.